Religião

O que é agnosticismo?

É a convicção de que a existência de Deus não pode ser conhecida ou provada. O agnosticismo cresce no mundo todo.

O significado original do termo “agnóstico” é: sem conhecimento. Apesar de 80% da população global afirmar ter alguma crença religiosa, o agnosticismo vem crescendo sensivelmente. Em 1980, 1,6% dos brasileiros diziam não crer em Deus. Em 2012, o percentual dos que afirmam não ter religião ou não crer em alguma forma de divindade saltou para 8,9%. Um estudo do sociólogo americano Phil Zuckerman identificou os países com maiores contingentes de ateus e agnósticos do mundo. A “campeã” é a Suécia, onde 85% não acreditam em Deus. O estudo indicou ainda que, nos países “descrentes”, não há ensino religioso. Crianças e adolescentes aprendem sobre cada uma das religiões na escola e são incentivadas a seguir ou não uma delas. Seguem-se o Vietnã (onde 81% consideram o Budismo e o Taoísmo como tradições, e não como crenças), Dinamarca, Noruega, Japão, República Tcheca, França e Coreia do Sul. Em todos estes países, mais da metade da população não segue nenhuma religião. Agnosticismo e ateísmo não são sinônimos. Enquanto os ateus simplesmente negam a existência de Deus, os agnósticos alegam a impossibilidade (ou não) de ser provada a existência de um Criador. A palavra “ateísmo” é relativamente recente. Conquanto haja relatos de povos primitivos que não prestavam cultos a nenhum tipo de divindade, o termo foi cunhado no século XVI, na Europa, durante a Inquisição. A Igreja queria equiparar descrentes, judeus, hereges e bruxas – em suma, todos os que não professavam a “verdadeira fé”. Gnosticismo (deriva de “gnosis”, que significa “conhecimento”, em grego) é um conjunto de correntes filosóficas que floresceu por volta do século I, quando chegou a estabelecer identidade com o Cristianismo nascente, tendo influenciado diversos intelectuais cristãos. Alguns séculos depois, foi classificado com “heresia”. Os agnósticos, que não formam um grupo coeso, apuseram o prefixo “a” ao termo antigo para expressar a impossibilidade de obtenção de provas objetivas sobre a existência de Deus. Portanto, todas as doutrinas baseadas nesta existência não podem ser admitidas como verdadeiras. Isto não significa, no entanto, que haja necessariamente alguma animosidade entre crentes e agnósticos.

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Um pouco de história

“Agnóstico” e “agnosticismo” são termos criados pelo biólogo inglês Thomas Huxley em 1869, apesar de outros pensadores terem desenvolvido pontos de vista agnósticos ao longo de toda a história, como o filósofo grego Protágoras de Abdera, no século V a.C. Huxley saiu em defesa das teorias defendidas pelo naturalista Charles Darwin, que lançou as bases da Teoria da Evolução (o biólogo chegou a ser apelidado de “buldogue de Darwin”, em função dos ataques eloquentes de cientistas e clérigos que negavam a teoria). Sobre uma reunião da Sociedade Metafísica, ele escreveu: “eles estavam seguros de ter alcançado certa gnose, tinham resolvido de maneira mais ou menos exata o problema da existência, enquanto eu sabia que não tinham, e tinha plena convicção de que o problema proposto é totalmente insolúvel; criei o termo ‘agnóstico’ para me contrapor a eles”. O Hino da Criação (Nasadiya Sukta), incluído no Rig Veda, é considerado uma das primeiras aparições do ceticismo e agnosticismo, principalmente em função do verso que afirma: “em seguida, houve o inexistente, nem havia ainda o existente”, incluindo a intervenção divina na própria criação. O Rig Veda é um hinário precursor dos demais livros do Vedismo, os documentos mais antigos dos hindus. Foi escrito em algum momento entre 1700 a.C. e 1100 a.C. Alguns estudiosos consideram que o Hino da Criação foi incluído nestas escrituras mais recentemente. O Vedismo marca a transição entre o animismo primitivo para o Bramanismo e Hinduísmo. Pirro de Élida (360 a.C. – 270 a.C.) centralizou seus estudos sobre três temas básicos: a natureza das coisas, como devemos nos portar frente a elas e o que obtemos com esta conduta. Sua doutrina prática, o ceticismo, se caracteriza por negar, ao conhecimento humano, a capacidade de encontrar certezas. O filósofo acompanhou Alexandre, o Grande, em suas conquistas pelo Oriente. No século XVII, foram redescobertos os livros de Sexto Empírico, escritos entre os séculos I e II da Era Cristã. A tese central do filósofo se dirige contra a defesa da pretensão de conhecer a verdade absoluta, tanto em questões científicas, como de moral. As obras de Empírico englobam “Contra os Físicos”, “Contra os Lógicos” e “Contra os Éticos”. Eles influenciaram pensadores modernos, como o filósofo francês Michel de Montaigne do historiador e ensaísta escocês David Hume.

Proposições agnósticas

Apesar de muitos escritores contemporâneos considerarem o agnosticismo como um meio termo entre teísmo e ateísmo (críticos mais ácidos classificam os agnósticos como pessoas que não querem emitir opiniões, se comprometer), isto é incorreto. Teístas e ateístas são os defensores e contraditores da existência de Deus; agnósticos são os que têm a convicção de que a razão humana não reúne elementos para penetrar os domínios do sobrenatural. Além disto, em maioria, estes pensadores não demonstram interesse em provar nada. A existência de Deus – eterna ou em algum momento da história – simplesmente não pode ser aceita ou negada. Algumas correntes acreditam que não seja um tema incognoscível, mas que o conhecimento humano ainda não investigou exaustivamente a questão para poder formular uma resposta satisfatória para a razão.

Tipos de agnosticismo

A divisão principal desta corrente filosófica separa os teístas e ateístas, diferenciados pela proximidade da aceitação ou não. Os primeiros tendem a crer que pode haver um deus, enquanto os últimos se aproximam do ateísmo. Os dois grupos, no entanto, admitem que nenhum dos dois pode neutralizar o pensamento do outro. Alguns agnósticos se declaram estritos, fortes, positivos, convictos ou absolutos e defendem a ideia de que a compreensão ou conhecimento dos deuses está completamente fora das possibilidades humanas – e sempre estará. O agnosticismo empírico (também chamado suave, aberto ou, em alguns casos, “fraco”) afirma que as explicações sobre divindades até agora propostas não se sustentam cientificamente, mas podem surgir novas evidências sobre o assunto. Para o agnosticismo apático, apesar de existir a possibilidade estatística da comprovação da existência de forças sobrenaturais, é impossível que divindades e outras personagens imateriais possam vir a interferir na vida das pessoas ou na mecânica do universo. A corrente também é conhecida como apateísmo, uma contração de apatia e ateísmo.

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A título de conclusão

O agnosticismo rejeita o fundamentalismo religioso. Se a existência de Deus não pode ser objetivamente ser comprovada, qualquer questão metafísica, como a intervenção de anjos, demônios e outras entidades sobrenaturais carece de base. Por outro lado, muitos agnósticos admitem as bases da angústia humana formulada pelo pintor parisiense Paul Gauguin, em uma tela que sintetiza toda a sua obra. Significativamente, o quadro recebeu o nome ”De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?”. Desta forma, os agnósticos também rejeitam as convicções dos ateus, quando estes afirmam peremptoriamente que Deus não existe. Da mesma maneira que não existem elementos para comprovar a existência divina, negá-la pura e simplesmente também de configura como uma declaração com ares dogmáticos.

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