Curiosidades

O que é antropofagia?

Uma espécie de canibalismo ritual, a antropofagia pode ser considerada uma homenagem fúnebre.

Antropofagia e canibalismo não são sinônimos, apesar de designarem a mesma prática: o consumo, por humanos, de carne humana. O canibalismo foi descrito pela primeira vez pela tripulação de Cristóvão Colombo, no final do século XV. Marinheiros identificaram o costume entre várias tribos da América Central insular.

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Por erro de algum escrivão, a esquadra da descoberta da América nomeou estes indígenas como “canibes”, e não “caribes”, termo que os nativos usavam para designar suas aldeias. Posteriormente, a palavra evoluiu para “canibales” e passou a servir pra descrever a prática cruel: tribos inimigas combatiam entre si para alimentar. Outros grupos foram identificar com as expedições de conquista europeia, especialmente na Oceania.

Estudos indicam que o canibalismo é uma prática comum em regiões carentes de alimentos ricos em proteínas. Ilhas (como as do Caribe e da Oceania) apresentam esta carência e uma fonte ao alcance das mãos são os rivais, ou mesmo crianças recém-nascidas.

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Mitos e ritos

A antropofagia, no entanto, não pode ser considerada como um simples ato de caça. Muitas etnias adotam esta prática para celebrar a memória do morto. Um grande líder – guerreiro, cacique ou guerreiro–, ao morrer, tinha certas partes retiradas do seu cadáver, que eram assadas em meio a diversas cerimônias e servidas para toda a aldeia. Da mesma forma, um inimigo valoroso tombado ou capturado em combate recebia o mesmo tratamento respeitoso.

Estes grupos, identificados na América nos séculos XVI e XVII – vários deles brasileiros – não tinham necessidade de incluir cadáveres na alimentação. O gesto era eminentemente religioso ou mágico e dele participavam inclusive crianças pequenas (ou, em alguns casos, apenas depois dos ritos de passagem para a idade adulta) acreditavam que o ato de devorar esta carne tinha o poder de transferir, ao menos em parte, as qualidades do falecido.

Hans Staden

Alguns grupos praticavam as duas formas de consumo de carne humana. Os índios Tupinambás, habitantes do litoral brasileiro no século XVI, entre o norte de São Paulo e o sul do rio de Janeiro e na faixa entre o rio São Francisco e o litoral baiano (até o recôncavo), praticavam tanto a antropofagia como o canibalismo bélico.

Esta nação indígena hoje extinta fazia incursões nos territórios de grupos rivais com o objetivo de ampliar seus campos de coleta, pesca e caça (por serem nômades, as atividades de agricultura e pecuária eram pouco relevantes).

Sempre que obtinham êxito em suas campanhas de conquista, os índios Tupinambás aprisionavam todos os sobreviventes – inclusive mulheres e crianças –, que eram abatidos e distribuídos para todos os membros das tribos vencedoras.

Hans Staden foi um mercenário aventureiro alemão contemporâneo da chegada dos europeus ao continente europeu. Esteve no Brasil por duas vezes, nas capitanias de São Vicente e Pernambuco (as únicas que prosperaram no sistema de capitanias hereditárias), lutando ao lado dos franceses, sendo derrotado nas duas ocasiões.

Na primeira viagem, nenhuma novidade: os portugueses conseguiram deter o avanço dos franceses e de oito mil índios que tentavam expulsar os colonizadores de Pernambuco. Na segunda expedição, no entanto o grupo a que Staden se aliou ao grupo que tentaria chegar a Assunção, capital do Paraguai, por mar. O projeto dos exploradores era atingir São Vicente (SP), fretar uma embarcação e tentar subir os rios da Prata e Paraguai. O navio, no entanto, naufragou.

Staden teve de se aliar aos Tupiniquins, inimigos dos portugueses. As duas tribos Tupi se enfrentaram e os Tupinambás levaram a melhor. O alemão foi feito prisioneiro, considerado uma espécie de troféu de guerra. O alemão passou nove meses refém destes índios e, nas aldeias em que permaneceu, observou os episódios de canibalismo, que registrou em seu livro “História dos Selvagens”.

Na verdade, o título do livro é um pouco mais longo: “História Verdadeira de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Carne Humana, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hesse até os Dois últimos Anos”.

Só o título da obra já demonstra o preconceito etnocêntrico e a falta de conhecimento científico. Mas é preciso entender que Staden não era um antropólogo, era apenas um dos muitos aventureiros europeus em busca de pau-brasil e índios para escravizar. O livro foi adaptado por Monteiro Lobato (“Hans Staden para Crianças”) e rendeu um filme luso-brasileiro lançado em 1999, dirigido por Luiz Alberto Pereira. Carlos Evelyn faz o protagonista.

Decadência

O canibalismo na América foi fortemente combatido pelos jesuítas, padres católicos que chegaram ao continente em missão de catequização ainda no século XVI. Em algumas nações indígenas, as vítimas eram desmembradas e os músculos (a força) eram destinados aos homens, enquanto o cérebro era oferecido às mulheres e crianças.

Os sacerdotes, no entanto, ensinando a moral cristã e organizando as aldeias de acordo com tradições europeias – ao mesmo tempo em que protegiam os índios das campanhas de aprisionamento –, lentamente extinguiram a prática, demonstrando que as virtudes eram dons de deus à alma, e não ao corpo.

Os últimos vestígios do consumo de carne animal como ritual ou alimento foram registrados em Papua-Nova Guiné, país da Oceania que ocupa a porção oriental do arquipélago de Nova Guiné, nos anos 1960. As ilhas estão entre os últimos locais isolados do planeta. Na época, estudos médicos indicaram que a prática de comer carne humana aumentava a transmissão de doenças degenerativas e o canibalismo passou a ser desencorajado e, com a independência do país, em 1975, formalmente proibido.

Práticas recorrentes

Atualmente, o canibalismo persiste apenas em situações isoladas. Em 1912, um grupo de haitianos praticantes do Vodu sacrificou e devorou uma criança de 12 anos. O Brasil, que se considerava livre da prática há alguns séculos, foi surpreendido com um caso ocorrido em 2012: um trio de amantes foi preso em Garanhuns, Pernambuco, acusado de devorar ao menos três mulheres, atraídas com promessas de emprego.

Estes homicídios ocorreram em supostos rituais de magia negra. A carne era utilizada na fabricação de salgadinhos. A motivação para os crimes, segundo a Polícia Civil do Estado, era “reduzir a população do planeta e purificar a alma”.

Antropofagia nas artes

No auge do Modernismo, movimento literário brasileiro que surgiu em 1922, durante a Semana de Arte Moderna, um grupo de artistas – escritores e pintores – criou, em 1929, a Antropofagia como forma de criar uma expressão artística genuinamente brasileira.

Os artistas brasileiros procuravam se libertar das tradições europeias que influenciaram diversas obras brasileiras. Capitaneados por Oswald de Andrade, autor de “João Miramar” e “Serafim Ponte Grande”, e Tarsila do Amaral, que pintou “Abaporu” (inspiração para o grupo), lançaram o Manifesto Antropofágico, apregoando a necessidade de usar uma “língua literária não catequizada”.

Para Oswald de Andrade, a Antropofagia significa a síntese do modelo estrangeiro com a perspectiva crítica do primitivismo nacional. O grupo descartava a ideia do “bom selvagem”, presente em obras como “O Guarani” e “Iracema”, de José de Alencar, em que os personagens principais são indígenas “com sentimentos cristãos”.

Os conceitos do movimento – a “Revista de Antropofagia” – foram divulgados em 25 artigos publicados entre maio de 1928 e agosto de 1929, em duas fases (ou dentições, como preferiam os membros do grupo). Na primeira, praticamente toda a linha de frente do Modernismo escreveu artigos. A segunda dentição, mais bem definida ideologicamente (com influências marxistas e surrealistas), tinha Oswald, Tarsila, Raul Bopp, Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz como editores.

A imagem do “selvagem canibal”, ainda na mente dos europeus quando o assunto era descrever os costumes de nativos da América e Oceania, foi transportada para a literatura: o objetivo central da Antropofagia era “devorar tudo e assimilar apenas o que interessa”. Ideias do movimento foram absorvidas pelo Tropicalismo, vertente musical surgida nos anos 1960. Para Caetano, Gil & Cia., o importante era experimentar, aspirar, ingerir tudo, mas só manter o que pode transformar.

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