Artes e Cultura

O que é ateísmo?

Um número crescente de indivíduos está se tornando ateu. Mas, o que é ateísmo?

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O ateísmo se caracteriza pela total ausência de crença em divindades. O termo, derivado do grego, é composto pela partícula “a” (sem) e pelo substantivo “théos” (deus). Os ateus, durante muitos séculos, foram rejeitados pela maioria da população: a falta de crença era interpretada como sinônimo de desrespeito aos valores da comunidade.

A partir do século XVIII, com a propagação (no Ocidente) do livre pensamento e da ampliação do conhecimento científico sistematizado, naturalmente ampliaram-se as críticas às religiões. Ao mesmo tempo, muitos indivíduos passaram a criticar as interpretações das igrejas.Com isto, o ateísmo ganhou espaço; “acusar alguém de praticar ateísmo” perdeu a conotação negativa.

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Características gerais

Os ateus rejeitam manifestações sobrenaturais ou paranormais, alegando não haver provas concretas de sua real existência. O ateísmo em si não é uma escola de pensamento: em comum, os descrentes têm apenas isto: a falta de crença.

Pode-se dizer que, neste sentido, ateísmo é apenas uma proposta que se opõe ao teísmo, a crença nos deuses, sem que isto implique a filiação a esta ou àquela doutrina religiosa. Alguns ateus são adeptos de doutrinas políticas ou filosóficas, mas esta filiação não caracteriza o ateísmo, que é pura e simplesmente a não aceitação das divindades.

Entre os argumentos para justificar a sua posição frente à inexistência de deuses: a existência do mal (em sentido amplo), das doenças e das mortes precoces, da desigualdade social, a imposição de dogmas rígidos e inquestionáveis pelas religiões, a falta de racionalidade na interpretação dos textos classificados como sagrados, etc.

Outro ponto importante é a impossibilidade de mensurar a atuação divina. Efetivamente, crer na intervenção de um deus na cura de uma doença, na recuperação do equilíbrio emocional ou na conquista de bens materiais é uma questão de fé; um indivíduo, curado de uma enfermidade grave, pode agradecer a deus ou apenas considerar-se uma pessoa de sorte.

O ateísmo filosófico

A lógica ateísta pode ser dividida em duas vertentes: a prática e a teórica (o ateísmo teórico pesquisa objetivamente argumentos contra a existência de deus). O ateísmo prático entende que a humanidade deve viver como se deus não existisse e explicar os fenômenos a partir do conhecimento acumulado, sem lançar mão da intervenção divina.

A existência de deus, aqui, nem chega a ser negada, mas pode ser considerada desnecessária e até mesmo inútil: os deuses não dão sentido à vida, nem participam do dia a dia dos indivíduos. O ateísmo prático pode ter as seguintes características, mais ou menos acentuadas de acordo com os indivíduos:

• ausência de motivação religiosa. A frequência a um templo não motiva a ação moral nem a solidariedade. Na verdade, a religião não motiva qualquer tipo de ação;

• exclusão da discussão sobre a existência de deus na busca de explicações filosóficas e científicas;

• indiferença em relação à discussão sobre temas religiosos ou que tenham os deuses como ponto de partida;

• desconhecimento completo do conceito de divindade.

Para Karl Marx (1818-1883), a espiritualidade é uma prática que independe da existência de deus. De acordo com o filósofo alemão, esta espiritualidade seria uma abertura para o ilimitado, a aceitação de que somos seres finitos e relativos, mas propensos a aceitar uma realidade absoluta, que não precisa passar por uma interpretação religiosa. A espiritualidade, desta maneira, é uma experiência que vai além da intelectualidade.

O filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980) propôs o existencialismo ateísta. Sartre afirmava preocupar-se menos em negar a existência de deus do que na necessidade de entender que o homem deve “encontrar-se novamente e perceber que ninguém pode salvá-lo de si mesmo, nem mesmo uma prova válida da existência de deus”.

O ateísmo na história

Este primeiro ponto pode parecer provocação. No salmo 14 (atribuído a Davi e escrito por volta do ano 1000 a.C.), o autor menciona o ateísmo: “o insensato diz: não há deus”. Esta é, portanto, a primeira informação histórica sobre a existência de ateus.

Grupos ateístas são encontrados em religiões orientais: na antiga religião védica (1300-300 a.C.) e em algumas vertentes do Hinduísmo antigo. A filosofia hindu é composta por seis escolas e a mais antiga delas – Sankhiya – não aceita a existência de divindades.

A Carvaka, uma escola de pensamento que surgiu na Índia por volta do século VI a.C. e extinguiu-se cerca de 1.400 anos depois, afirmava a inexistência da alma. O importante, para o homem, era procurar a felicidade no mundo material e o prazer físico tanto quanto possível (uma argumentação semelhante à da escola cirenaica grega).

Diágoras, um filósofo ateniense do século V a.C., é considerado “o primeiro ateu”. Sabe-se pouco sobre ele, mas é certo que se tratava de um crítico da religião dos gregos e dos mistérios de Elêusis. Acusado de impiedade, teve de fugir de Atenas e morreu em Corinto.

Crítias (460-403 a.C.) é outro exemplo ateniense de ateísmo. Ele fez parte do grupo dos 30 tiranos que governaram a cidade (consta que era um dos mais violentos) e afirmava que os deuses eram uma invenção humana para assustar as classes populares e obrigá-las a seguir uma ordem moral.

Os atomistas (Demócrito à frente) tentaram explicar o mundo a partir de uma ótica materialista, sem referências ao divino ou ao místico.

Em Roma, o poeta Lucrécio (99-44 a.C.) afirmou que, se houvesse deuses, eles estariam despreocupados da humanidade ou eram incapazes de alterar o mundo objetivo. O filósofo Sexto Empírico, que viveu no século II d.C., é um dos melhores exemplos do ceticismo pirrônico: ele defendia que é necessário suspender o julgamento sobre todas as crenças. Empírico também se opunha à astrologia e a outras formas de magia.

O termo “ateu” foi empregado em situações conflitantes. Os primeiros cristãos de Roma eram tachados de ateus por rejeitarem os deuses do panteão romano (muitos foram executados em função da sua descrença nos deuses pagãos e, em particular, pela não aceitação da divindade do imperador).

Em 311, o Edito de Tolerância da tetrarquia que governava o império pôs fim à perseguição de Diocleciano aos cristãos e permitiu o culto.

No governo de Teodósio, 70 anos depois, o Cristianismo foi alçado à condição de religião de Estado. A partir de então, o cultivo de heresias (conjuntos de ideias que conflitavam com o pensamento majoritário) tornou-se crime punível inclusive com a morte.

Durante a Idade Média europeia, o ateísmo refluiu. Algumas explicações possíveis são a forte presença da Igreja nas comunidades e a dificuldade de desenvolvimento do pensamento e da discussão filosófica, uma vez que a educação era restrita ao pensamento oficial (católico).

A crítica ao Cristianismo voltou a ter força a partir do século XVII, especialmente na França e Inglaterra. O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), apesar de ser tido como pensador protestante, defendia a filosofia materialista e o ceticismo em relações aos fenômenos naturais.

Para Baruch Espinosa (1632-1677), a providência divina não se constituía como fato objetivo. O filósofo holandês rejeitava a providência em favor de um naturalismo panenteísta (doutrina segundo a qual o universo está contido nos deuses, mas estes são maiores do que o universo).

Na mesma época, o panteísmo passou a ser defendido abertamente. Ao contrário do que afirma o panenteísmo, o panteísmo afirma que o universo e as divindades coincidem perfeitamente: deus e a natureza, portanto, são idênticos.

O escocês David Hume (1711-1776) desenvolveu uma ótica filosófica baseada no empirismo, enfraquecendo a metafísica e a teologia. Outros filósofos de destaque durante o Iluminismo foram Denis Diderot e Jean d’Alembert, ambos autores da “Enciclopédia Francesa”.

A Revolução Francesa (a partir de 1789) subordinou o clero ao Estado e levou a discussão sobre ateísmo e teísmo para todas as classes sociais. Em certa medida, esta subordinação levou a uma violência contra os sacerdotes (muitos deles deixaram a França).

Na segunda metade do século XIX, os ateus deram o tom à produção filosófica, sob a influência de racionalistas e livres-pensadores. Na Alemanha, muitos autores proeminentes defenderam a inexistência das divindades e foram críticos das religiões. Entre eles, Ludwig Feuerbach, Karl Marx, Max Stirner, Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer.

O ateísmo no mundo

Um estudo de 2005 publicado na “Enciclopédia Britânica” revelou que os não religiosos são 11,9% da população mundial e os ateus, 2,3% (neste percentual, não estão incluídos os profitentes de religiões não teístas, como algumas correntes do Budismo).

Uma enquete do “Financial Times”, realizada em 2006, mostrou os totais aproximados de ateus nos EUA e em cinco países da Europa. As menores taxas de ateísmo foram identificadas nos EUA: 4%. Os europeus exibem os percentuais mais elevados: Itália (7%), Espanha (11%), Grã-Bretanha (17%), Alemanha (20%) e França (32%).

O número é semelhante ao apurado em uma pesquisa oficial da União Europeia, que encontrou 18% de ateus na população do continente. Há diferenças importantes, no entanto. Enquanto menos de 10% da população de Chipre, Polônia e Romênia são ateus, 85% da população sueca afirmam não acreditar na existência de um deus pessoal.

Na América Latina, entre 1% e 3% da população são ateus. As exceções são Argentina, Cuba, México e Uruguai, com cerca de 10% de ateus. No Brasil, de acordo com levantamento feito pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) em 2014, 8,9% se declaram ateus, um aumento de um ponto percentual em relação a 2004.

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