Saúde e Bem Estar

O que é auto-hemoterapia?

É a extração de sangue venoso e injeção do mesmo sangue por via intramuscular. Saiba mais sobre auto-hemoterapia.

O nome indica: “auto” significa “próprio”. Auto-hemoterapia é a utilização do sangue do próprio paciente, com vistas à obtenção de benefícios à saúde. A retirada do sangue venoso é seguida imediatamente pela injeção por via intramuscular.

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Portanto, retira-se sangue de uma veia, que é reintroduzido no corpo em um músculo, em que ocorre uma absorção mais lenta dos princípios ativos de um medicamento – ou, no caso, de sangue rico de dióxido de carbono (CO2). Recapitulando noções básicas de anatomia: O sangue rico em oxigênio corre peças artérias, levando “combustível” para as células. No retorno ao coração, o sangue retira o CO2, que será expelido com a troca de gases nos pulmões.

Divergências

A técnica da auto-hemoterapia é formalmente condenada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) desde 2007, que alerta sobre eventuais danos à saúde dos pacientes. Na avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a técnica oferece riscos e não existem estudos comprobatórios de sua eficácia.

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Os males à saúde compreendem, de acordo com os dois órgãos públicos: edemas, dores, hematomas e infecções, que podem evoluir para quadros clínicos mais graves, como coagulação intravascular disseminada e múltiplas hemorragias.

Em 2015, o CFM reiterou a avaliação feita anteriormente e informou oficialmente que os médicos estão oficialmente proibidos de praticar a auto-hemoterapia (no Brasil, a arte da Medicina está subordinada ao cadastro prévio do CFM e nos conselhos regionais).

Os defensores

Ao menos uma voz, no entanto, é dissonante na comunidade acadêmica: o médio Francisco das Chagas Rodrigues, subchefe do Departamento de Medicina Clínica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sempre defendeu o auto-hemoterapia e critica o parecer do CFM; para ele, a proibição é “uma agressão à arte da cura”.

Os defensores da auto-hemoterapia, por seu lado, afirmam que o método aumenta o número de macrófagos na corrente sanguínea (macrófagos são grandes células do tecido conjuntivo que fagocitam – destroem – elementos estranhos ao organismo; desta forma, conseguem intervir na evolução das infecções).

A técnica também aumenta as defesas do organismo, facilitando a eliminação de bactérias, fungos, vírus, fibrina (proteína envolvida na coagulação de sangramentos) e células cancerosas. O aumento dos macrófagos ocorre porque, com a injeção intramuscular de sangue, o organismo (mais precisamente, o sistema retículo-endotelial, ou SER, um mecanismo da medula óssea) entende a substância como um corpo a ser expulso.

Enquanto o sangue permanece entre as fibras musculares, o SRE fica ativado. Este período pode estender-se por até cinco dias, declinando entre o quinto e sétimo dias, até retornar aos níveis normais (os macrófagos equivalem a 5% das células do sangue, mas, com a terapia, atingem até 22%). Por isto, a recomendação básica é que a auto-hemoterapia seja realizada semanalmente.

O médico Luiz Moura, formado pela Universidade Federal Fluminense, iniciou-se na técnica ainda durante o curso de Medicina, em 1943. Ele defende a auto-hemoterapia não apenas por seus benefícios ao organismo como um todo, mas também por ser um tratamento barato, sem contraindicações, que pode ser realizado ambulatorialmente e até mesmo em farmácias, sem depender de equipamentos de refrigeração ou processamento do sangue: basta uma seringa.

A discussão se reacendeu em 2004, quando um artigo do Dr. Moura deu origem à publicação de diversas matérias (na imprensa leiga e especializada) com posições pró e contra a auto-hemoterapia. O assunto chegou ao grande público depois que a técnica foi alvo de reportagem do “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão.

A polêmica

Não existem quaisquer estudos acadêmicos que ratifiquem a adoção da auto-hemoterapia como procedimento clínico. Por outro lado, existem centenas de relatos de pacientes que obtiveram bons resultados no quadro geral, que ainda não foram devidamente sistematizados e observados com critérios científicos, fato admitido inclusive pelos entusiastas da técnica.

De acordo com a legislação brasileira, apenas médicos hematologistas estão habilitados a aplicar qualquer terapêutica hemodinâmica. O parecer do CFM, na prática, impossibilita o emprego do método, que, mesmo assim, continua sendo praticado.

Além da ANVISA e do CFM, a Faculdade de Medicina da USP também condena a auto-hemoterapia, em função dos potenciais efeitos nocivos ao organismo e à falta de qualquer evidência que confirme a eficácia, ou, pelo menos, que autorize a sua utilização como placebo ou para fortalecimento geral (físico e emocional) dos pacientes.

Outros órgãos representativos de profissionais da área de saúde, como os conselhos federais de Enfermagem e de Biomedicina, além do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo, já se posicionaram contra o uso clínico da auto-hemoterapia. Para boa parte dos representantes da comunidade médica, a prática poderia ser admitida em experimentos clínicos, para avaliar possíveis indicações do tratamento.

Um argumento explosivo acirra os ânimos de defensores e contraditores da auto-hemoterapia: o não reconhecimento desta terapêutica estaria sendo fortalecido pela indústria farmacêutica e por hospitais e clínicas particulares, desinteressados em desenvolver uma técnica barata, sem contraindicações.

Na maioria dos casos, a aplicação da auto-hemoterapia dispensa a ministração de medicamentos, não necessita de internações, nem de procedimentos de diagnóstico. Em tese, isto prejudica os interesses dos “poderosos”. É um argumento semelhante ao de que a indústria não se interessa por encontrar a cura da AIDS ou do câncer, apenas por prolongar a vida dos pacientes.

Mais pragmáticos, os líderes da divulgação e aplicação da auto-hemoterapia invocam a Declaração de Helsinque, um conjunto de princípios éticos que rege a pesquisa com seres humanos, redigida em 1964 pela Associação Médica Mundial, durante reunião na capital da Finlândia.

De acordo com o documento, revisado várias vezes e utilizado até hoje como referencial para a aplicação de tratamentos não comprovados (os chamados ensaios clínicos), “o médico, depois de buscar conhecimento especializado, com o consentimento do paciente ou de seus familiares, pode usar uma intervenção não comprovada, se, em seu julgamento, ela ofereça a possibilidade de salvar a vida, restaurar a saúde ou eliminar o sofrimento”.

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