Curiosidades

O que é conclave?

Derivado do latim “cum clavis”, conclave é literalmente uma reunião cujos participantes são trancados à chave.

O conclave é uma reunião dos cardeais da Igreja Católica Romana, em regime de clausura. Os membros não podem se comunicar com o exterior enquanto não se decidir quem será o novo papa, líder espiritual do Catolicismo e chefe do Estado do Vaticano. O termo “conclave” só é utilizado para a eleição dos sumos pontífices, que ocorre entre 15 e 20 dias após a morte ou renúncia dos bispos de Roma, outro título outorgados aos papas.

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A história só registra duas renúncias papais: a de Bento XVI, que assumiu o pontificado em 2005 e deixa o comando da Igreja em 28.2.2013, fato anunciado semanas antes, sob a justificativa de cansaço físico e mental, e Gregório XII, em 1212. Outros papas foram forçados a deixar o cargo: Clemente I, no ano 96, executado no ano seguinte; Ponciano e Hipólito (que teria sido um antipapa) se declararam papas em 230 e foram exilados na Sardenha (Itália) cinco anos depois; Silvério foi acusado de traição, ficou menos de dois anos no trono papal e em 537 foi deposto por um general do Império Bizantino; em 654, Martinho foi deposto e deportado para a Crimeia. Sua falta de disposição para retomar suas funções foi considerada uma renúncia; em 964, Bento V foi obrigado a se exilar em Hamburgo; João XIV foi preso num castelo em Santo Ângelo, em 984, e morreu de fome; Bento IX reinou em três ocasiões, entre 1032 e 1048. Renunciou e retirou-se para um mosteiro, mas manteve o título de cardeal; Gregório VI (1045-1046) também foi deposto e expulso dos Estados Pontifícios.

Os rituais que formam o conclave permanecem praticamente inalterados há 800 anos. Em 1274, o papa Gregório X usou pela primeira vez a palavra e instituiu as novas regras para a eleição. Isto aconteceu para reduzir os prazos para escolher o chefe da Igreja. Na eleição de Clemente IV, em 1265, a reunião durou um ano e meio. Gregório X determinou que os cardeais ficassem confinados na Capela Sistina até que surgisse a decisão. A eleição de Celestino V, que teve início em 1292, foi ainda mais longa: 27 meses.

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Como as regras foram definidas na Idade Média, era preciso estabelecer um prazo para que os papas chegassem a Roma. O intervalo é chamado de novemdiales e atualmente é usado para que os participantes do conclave conversem sobre o estado da igreja e, apesar de proibidos, têm início os conchavos e alianças. Tecnicamente, todos os cardeais participantes são elegíveis, mas apenas alguns poucos nomes se destacam.

Ao fim do novemdiales, todos se reúnem na Catedral de São Pedro – considerado o primeiro papa pela Igreja Católica, para a celebração da missa Pro Eligendo Papa. Em seguida, são encerrados na Capela Sistina, famosa pelos afrescos do artista Michelangelo Buonarroti.

O processo de eleição

Assim que o Vaticano declara a morte ou renúncia, a Sede Apostólica é considerada vacante. Neste período, os negócios da Igreja são comandados pelo cardeal decano – ou camerlengo – sacerdote a quem compete comprovar a morte do papa, juntamente com outras autoridades, e convocar o Colégio de Cardeais, para que se reúnam no conclave. Participam da reunião apenas os cardeais com menos de 80 anos.

Desde 1970, existem três formas de eleição dos papas: por aclamação, quando a maioria dos cardeais expressa o desejo, por aceitação, quando um dos participantes aceita a indicação de um grupo, ou por votação secreta. O sigilo do conclave é total e deve ser mantido mesmo depois da consagração do novo papa. Mesmo os auxiliares, inclusive leigos, que participam da reunião não podem se comunicar com o exterior por qualquer meio, inclusive sob pena de excomunhão, o impedimento aos sacramentos.

No século XX, o conclave mais curto ocorreu com a eleição de Pio XII, em 1939, que durou apenas dois dias; o mais longo foi o de Pio XI, em 1922, que durou cinco dias.

As preparações para o conclave só têm início após o funeral do papa falecido; ocorriam entre o 15º e o 20º dia a contar da morte, mas, com a renúncia de Bento XVI, o prazo foi alterado: cabe aos cardeais eleitores decidirem se querem reduzi-lo ou ampliá-lo.

Na Capela Sistina, são colocadas duas mesas: uma em que são colocadas três jarras de vidro transparente e uma bandeja de prata; a outra mesa é para os três cardeais escrutinadores.

O Mestre de Celebrações Litúrgicas Pontifícias, após o assentamento de todos os eleitores, dá a ordem em latim: “extra omnes”: é o sinal para todos os não votantes deixarem a capela. O camerlengo lê a ordem para que todos os cardeais aceitem o novo papa, rejeitem influências externas e comprometam-se com o sigilo. Ao serem chamados nominalmente, os cardeais dirigem-se à primeira mesa e fazem o juramento solene.

Em seguida, são sorteados três participantes que contarão os votos. Também por sorteio, são indicados três participantes “infirmarii”, para recolher os votos dos cardeais que eventualmente tenham ficado doentes e outros três para revisar o processo. Todos os participantes ficam hospedados na Casa de Santa Marta, contígua à Capela Sistina.

Em casa votação, são usadas as jarras de vidro, onde são depositadas filipetas de papel com o nome do escolhido abaixo da frase “eligio in summum pontificem” (elejo como sumo pontífice). Os cardeais votam de acordo com a idade: os mais velhos são os primeiros. Dirigem-se à mesa, colocam o voto na bandeja e em seguida na jarra de vidro.

Terminada a votação, o primeiro escrutinador pega a jarra, deposita os votos no segundo recipiente de vidro e agita-o para misturar os votos. Em seguida, começa a ler os nomes indicados em voz alta para o segundo e terceiro escrutinadores, que procedem da mesma forma. O terceiro escrutinador precisa perfurar as cédulas com agulha e linha, sendo que esta deve passar pela palavra “eligio”. Em seguida, deposita-os no terceiro jarro, momento em que os revisores se aproximam da mesa para conferir a votação.

É feita a contagem e, caso nenhum dos participantes tenha atingido dois terços dos votos, tem início uma nova votação, seguindo o mesmo cerimonial. Neste caso, os votos, assim como as fichas de sorteio dos escrutinadores, revisores e “infirmarii”, são colocados numa caixa com palha molhada, que é queimada numa lareira, expelindo uma fumaça negra pela chaminé, sinal para os fiéis de que o novo papa ainda não foi escolhido.

Caso um dos participantes atinja os dois terços necessários para a escolha, o cardeal diácono dirige-se e pergunta formalmente: “cardeal, aceitas tua eleição canônica como sumo pontífice?”. O escolhido pode rejeitar e, neste caso, é realizada nova votação.

Caso ele aceite a “cátedra de Pedro”, como é chamado o trono do Vaticano, o diácono faz uma nova pergunta: “Como queres que te chamemos?”. O novo papa diz o nome que pretende adotar e em seguida é realizado o ato de obediência: todos os cardeais, a partir do mais velho, ajoelham em frente ao papa e beijam seu pé direito.

Os votos são queimados sem palha, o que produz fumaça branca. Em seguida, o primeiro diácono sai para a varanda e faz um curto discurso: “Anuncio com a maior alegria: temos um papa. O Senhor (primeiro nome), cardeal da Igreja Católica Romana, que escolheu o nome de (nome papal)”. Horas depois, o novo papa já surge com as vestes brancas – são confeccionados trajes de diferentes tamanhos, para não haver problemas. Na mesma varanda e profere sua primeira bênção “Urbi et Orbi” – para Roma e para o Mundo.

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