Artes e Cultura

O que é criacionismo?

É a crença em que o universo foi criado por um ente sobrenatural. Saiba mais sobre o criacionismo.

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O termo criacionismo, apesar de estar diretamente relacionado à intervenção de uma divindade na criação “do céu e da terra”, atualmente é mais empregado para a rejeição, por certas correntes religiosas, à teoria da evolução, desenvolvida pelo naturalista inglês Charles Darwin a partir da publicação do livro “Da Origem das Espécies”, em 1859.

criacionismo

Desde o século XVIII, a ciência passou a desenvolver alguns conceitos que contrariavam ou desmentiam algumas verdades cristãs, estabelecidas a partir de uma leitura literal dos textos bíblicos. A geologia se opôs à criação do mundo em seis dias, a astronomia desvendou um universo muito maior do que o descrito no Livro da Gênese e a biologia situou a origem da vida a partir de um único ser vivo bastante simples.

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A reação de alguns grupos religiosos foi imediata. O famoso aforismo “o homem descende do macaco”, até hoje atribuído a Darwin, nunca foi proferido pelo naturalista. Foi utilizado para denegrir a teoria da evolução, não apenas por religiosos, mas também por membros da Real Sociedade de Londres.

A origem do universo

Todas as civilizações da Terra dedicaram um tempo considerável especulando sobre como se formou o homem e tudo que o envolve. Na verdade, até hoje, as principais perguntas da filosofia são: de onde viemos e para onde vamos.

O desenvolvimento da ciência não elimina totalmente a intervenção divina, mas, pelo menos, coloca este “fiat lux” em uma distância cada vez maior. De acordo com o calendário hebraico, estamos no ano 5768. Isto indica que a criação, de acordo com o descrito na Gênese (a separação das águas, a fixação do elemento seco, a geração de Adão e Eva, etc.), teria ocorrido há menos de seis mil anos.

O criacionismo defende que foi exatamente isto que ocorreu. No entanto, evidências arqueológicas, geológicas, biológicas e até históricas demonstram o contrário. O império egípcio teve início há seis mil anos, com a unificação dos reinos do Alto e Baixo Nilo. Antes disto, a humanidade percorreu um longo caminho.

Existem evidências de que o hominídeo mais antigo, Sahelanthropus tchadensis, tenha vivido há sete milhões de anos, na região de Sahel (sul do deserto do Saara, no Chade), o que, na melhor das hipóteses (para os religiosos fundamentalistas), desloca Adão, o pai da humanidade, para um período muito mais distante. Além disto, entre o homem de Sahel e o Homo sapiens, ocorreram muitas transformações anatômicas.

Para o criacionismo, no entanto, nada disto pode ter ocorrido. O homem foi modelado em barro; em seguida, recebeu o “sopro da vida” do próprio Deus (a palavra “Adão” deriva do hebraico “hadama”, que significa feito de barro). Em seguida, Deus retirou uma das costelas de sua criatura e criou Eva, formando o primeiro casal.

A polêmica

Com as descobertas científicas dos séculos XVIII e XIX, a interpretação literal da Bíblia parecia estar com os dias contados. Afinal, era impossível sustentar que Deus teria separado as águas (as que ficam embaixo formariam os rios e mares, enquanto as superiores seriam uma espécie depósito para as chuvas).

A água, aliás, parece ser o elemento primordial para os hebreus, uma vez que ela não foi criada: “no início… o espírito de Deus pairava sobre as águas”.

Outras passagens demonstram que o relato do primeiro livro da Bíblia e da Torá judaica são apenas uma tentativa ingênua de interpretação do mundo:

• o texto descreve uma terra plana, recoberta por um firmamento que a protege das “águas superiores”;
• a criação das estrelas, da Lua e do Sol em um momento posterior ao da criação da Terra e da própria luz.

Existem outras incongruências. Se um único casal tivesse gerado toda a humanidade, em uma região delimitada, qualquer epidemia teria dizimado a raça humana. Adão e Eva teriam tido três filhos, todos homens – e um deles foi assassinado pelo irmão. Desta forma, Caim e Set (os dois sobreviventes) seriam responsáveis por todas as linhagens humanas.

Nada disto, no entanto, é entrave para o pensamento fundamentalista. Algumas correntes religiosas simplesmente passaram a encarar a criação bíblica como uma metáfora, sem necessariamente descrever o surgimento do universo. Outras, no entanto, se apegaram ainda mais à letra, defendendo o livro sagrado e atacando os cientistas.

O termo “criacionismo” foi cunhado em 1929 (antes disto, falava-se apenas em antievolucionismo). A palavra foi utilizada inicialmente nos EUA, por cristãos fundamentalistas adeptos da “Terra Jovem” (a Terra com apenas seis mil anos de idade).

De acordo com os criacionistas cristãos e judeus, a teoria da evolução não consegue explicar satisfatoriamente a diversidade e a complexidade da vida na Terra (em um pensamento simplista, o questionamento é: se todas as formas de vida descendem de uma única espécie unicelular, por que foram gerados seres tão díspares, como uma bactéria e um ser humano?).

Na maior parte do Ocidente, a discussão entre evolucionistas e criacionistas não chega a interferir no dia a dia. Na maior parte dos países, existem escolas confessionais que ensinam a criação do mundo como está descrito na Bíblia, mas as escolas leigas (e todas as redes públicas de ensino) ensinam a evolução de acordo com as linhas científicas.

Nos EUA, no entanto, a polêmica é grande. Apesar de a Suprema Corte ter determinado, ainda nos anos 1970, que as duas explicações deveriam ser ensinadas nas escolas fundamentais, volta e meia surgem leis estaduais e municipais retirando a teoria da evolução do currículo.
O ensino religioso é (ou deveria ser) uma questão de foro íntimo, uma decisão a ser tomada pelos pais. Infelizmente, em todas as experiências nas quais a ciência foi posta de lado, não se viu apenas o fortalecimento de um ponto da religião, mas um recrudescimento da intolerância, sexismo, racismo e outras formas de discriminação.

O design inteligente

Talvez tenha sido uma tentativa de chegar ao meio termo entre as duas propostas de explicação da origem do universo, mas, o design inteligente é apenas uma teoria pseudocientífica.

De acordo com esta corrente, o Big Bang e a teoria da seleção natural explicam a maior parte da geração do universo e da vida, mas algumas características da trajetória do homem e do mundo podem ser mais bem explicadas quando se pressupõe a intervenção de uma inteligência superior.

Na verdade, a tese do design inteligente foi formulada inicialmente nos EUA, na década de 1980, por criacionistas que queriam se afastar da polêmica. O ponto de partida foi a publicação de “Of Pandas and People”, de Percival Davis e Dean Kenyon.

Apesar de negarem conexões com movimentos religiosos, os defensores do design inteligente mantêm a existência e a intervenção divina na criação. Não basta estabelecer as convicções religiosas próprias: é preciso ampliá-las para a comunidade “científica”.

Fatos & fatos

Enquanto os criacionistas procuram armar-se de argumentos para provar as suas ideias, algumas religiões simplesmente ignoram a polêmica entre criação e evolução: se a ciência comprovou determinados fatos, eles estão comprovados; ponto final.

O papa Francisco, líder dos católicos romanos do mundo todo, por exemplo, afirmou que o evolucionismo e o Big Bang são linhas de pensamento científico bem assentadas e que não entram, de nenhuma forma, em conflito com as linhas gerais do Catolicismo. Trata-se de uma lógica bem definida: separar o que é objeto dos estudos da ciência e da religião.

Talvez o principal problema do criacionismo e do design inteligente não seja a crença na criação, seja há seis mil anos, seja imaginando Deus presidindo ao Big Bang. Afinal, cada indivíduo é livre para escolher uma religião (ou não escolher religião nenhuma).

O perigo começa quando um indivíduo ou grupo acredita poder estender as próprias crenças para toda uma comunidade (em alguns casos, parte dos fiéis crê que isto é uma obrigação, para “salvar” os descrentes). Quem impõe dogmas religiosos com facilidade pode impor ideais políticos, por exemplo. E isto nunca acaba bem.

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