Comportamento

O que é felicidade?

Não é uma definição fácil, já que o conceito é pessoal e intransferível: cada um explica a felicidade de acordo com seus desejos e necessidades. Por outro lado, quase todos concordam que, para ser feliz, é preciso ter saúde, amor, dinheiro que pague as contas e outras condições objetivas que variam de acordo com a época.

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A felicidade, para os antigos egípcios, pode ter alguns pontos de contato, mas está distante do conceito atual. Os desejos eram mais limitados – como a própria definição da vida – e isto pode ter provocado uma sensação maior de felicidade; de qualquer forma, esta própria sensação era necessariamente limitada: crenças, práticas supersticiosas e a falta de conhecimento objetivo norteavam o cotidiano.

A felicidade sempre foi acompanhada, através da história, por uma companheira inseparável: a filosofia, que ajuda a explicar esta condição humana. É importante lembrar que, mesmo sendo analisada ao menos desde Platão (século IV a.C.), a teologia, até o século XVI, era parte do conhecimento filosófico; portanto, a busca por Deus (qualquer que seja ele) esteve por muito tempo vinculada também à aproximação com a divindade.

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Felicidade e filosofia

Platão e Aristóteles associavam a felicidade à virtude (no sentido de qualidade moral estável, que leva o homem para a prática do bem). Platão afirmava que todas as coisas têm sua função: a da alma é ser virtuosa.

Alguns séculos antes, Tales de Mileto desenvolveu o seguinte conceito de felicidade: feliz é “quem tem um corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada”. Vale lembrar que, para os gregos, sorte era quase sinônimo de destino. Ela era definida pelas Moiras, três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida de todos. Como a mitologia grega é toda poética, o fio do destino era tramado na “roda da fortuna”.

A felicidade helênica dependia também dos daimons, ou bons demônios. Seriam gênios sobrenaturais encarregados de acompanhar a vida de todos os homens. Por volta do século V a.C., surgiu o conceito de “maus demônios”, que também acompanhariam os homens em sua jornada terrestre.

Os filósofos começaram a desenvolver o pessimismo e os dramaturgos criaram a tragédia nesta época. Nesta cultura, tragédia não é apenas uma história com final infeliz; este final foi urdido pelos maus demônios, que, em algum momento (chamado “peripécia” no teatro grego) impedem ou precipitam uma ação, determinando a tristeza ou a calamidade.

Demócrito de Abdera rompeu com a ideia do pessimismo que contaminava o pensamento grego. O primeiro formulador da teoria atômica (no século IV a.C.) ensinava que todas as coisas se formam ao acaso, pela junção mais ou menos perfeita dos átomos, mas o homem é dotado de livre arbítrio, faz escolhas e pode fugir do determinismo.

O segredo da felicidade, para Demócrito, era abandonar os desejos e ilusões, que o tornam escravo do determinismo, e alcançar a serenidade, caminho para o conhecimento que nos deixam menos suscetíveis aos caprichos dos deuses (ou do destino).

Cristianismo e sofrimento

O Cristianismo, da forma como foi formulado pelos primeiros discípulos de Jesus, conquistou progressivamente a Europa e o norte africano com um conceito que pode soar estranho: o de que a dor liberta e salva.

A origem do raciocínio era bem simples: se o Cristo morreu na cruz para nos salvar, nada melhor do que sofrer para alcançar a graça divina. Para filósofos cristãos da Idade Média, como Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino e Anselmo da Cantuária, mais do que a felicidade, o importante é a salvação da alma humana.

O racionalismo, porém, logo voltou a dar o tom da discussão sobre a felicidade. A dor e o sofrimento não podem ser negados, mas não devem ser valorizados. O próprio pensamento cristão encontrou outras vertentes: o importante é seguir a ética cristã – e a ética é o centro da filosofia – e não apenas a última parte do Novo Testamento, que descreve o martírio do Cristo.

Voltando a ser senhor de si mesmo

Na Idade Moderna os filósofos encontraram – ou definiram – outro caminho: o prazer. Para o inglês John Locke e o alemão Gottfried Leipzig, felicidade é o “prazer duradouro”. Os iluministas afastaram de vez as ideias fatalistas.

O também alemão Immanuel Kant (falecido no início do século XIX), até hoje considerado um dos mais importantes pensadores do mundo, definiu a felicidade como a condição do ser racional no mundo, livre de crenças, esperanças vãs ou a tutela de religiosos ou pensadores de qualquer outra origem. O filósofo afirma, em “A Crítica da Razão Pura”, que este ser racional determina tudo o que acontece na vida de acordo com a sua vontade. Mas, para Kant, a felicidade estava relacionada ao prazer e não à ética – portanto, não deveria ser objeto da filosofia.

Mesmo assim, a influência kantiana foi bastante forte: a felicidade, no surgimento dos Estados democráticos, passou a ser encarada como um direito do homem, tanto que está registrada na Constituição dos EUA e na Declaração Universal dos Direitos Humanos (o direito à felicidade ou ao menos à busca desta situação).

Felicidade hoje

Filósofos, psicólogos e sociólogos concordam hoje em que a felicidade não é uma condição ou conjunto de condições, mas a forma emocional com que os indivíduos reagem aos fatos: alguns sabem aproveitar as dificuldades para aprender e evoluir, enquanto outros se nomeiam vítimas da família, dos amigos, emprego e até de si próprios.

A humanidade começa a romper com limitações culturais que definem o que é bom e o que é belo. Tudo depende do contexto e da forma de encarar a vida objetiva. Alguns indivíduos, acreditando numa vida futura além da morte, diferenciam alegria e felicidade: esta última é uma condição definitiva e imutável, enquanto a primeira é um conjunto de momentos que se intercalam com períodos de tristeza.

A felicidade para a ciência

Sejam momentos intercalados, seja uma condição eterna e inamovível, cientistas encontraram algumas condições para que as pessoas sejam felizes. Na Universidade de Toronto (Canadá), por exemplo, descobriu-se que pessoas que acordam cedo são mais felizes. A chave para a felicidade é a determinação de um relógio biológico mais propício ao relaxamento, prevenindo contra o estresse.

Na Universidade de Maastricht (Holanda), os pesquisadores colocaram a felicidade em um “U”: as pessoas são mais felizes no início e no fim da vida. Durante a maturidade, as preocupações com a família, as contas a pagar, a frustração com os pequenos problemas cotidianos, impedem que a felicidade se instale: a alegria é sempre intercalada com momentos de estresse e ansiedade.

Pessoas com maior número de amigos são mais felizes. Mesmo que seja preciso partilhar, em uma mesma semana, um parto, um casamento e a internação hospitalar de um parente, o acúmulo de atividades não gera estafa, mas satisfação pessoal.

que seja apenas cumprimentar o porteiro do prédio ou distribuir sopa e alimentos para sem teto) são atitudes que acalmam a mente e proporcionam satisfação: “a felicidade neste mundo”. Os dados foram mensurados por pesquisadores da Universidade de Illinois, EUA.

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