Curiosidades

O que é intolerância?

Falta de habilidade ou vontade de aceitar a diferença, a intolerância é responsável por vários conflitos sociais.

O termo “estrangeiro” explica a origem da intolerância. “Estranho” e “estrangeiro” têm a mesma raiz: coisas não comuns ao grupo familiar ou tribal são diferentes e devem ser evitadas ou até combatidas. Era assim que pensávamos há alguns milênios: qualquer pessoa de fora que entrasse em nossa aldeia era encarada com desconfiança, como se fosse uma ameaça a ser evitada.

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O medo do diferente tinha razão de ser – poderia ser uma invasão – e permaneceu assim por muitos milênios. A intolerância só começou a ser combatida na Idade Moderna. O filósofo inglês John Locke, o precursor da democracia liberal, escreveu “Ensaio sobre a Tolerância” em 1653. Mas, ainda assim, ele defendia a escravidão e a exploração dos índios (a população nativa americana, dizimada pelos exploradores europeus). Para Locke, a escravização era um ônus para os derrotados em guerra – e, portanto, uma condição superior à eliminação pura e simples dos inimigos.

A tolerância

Tolerar não significa aceitar ou reconhecer a diferença, mas é um passo além da intolerância, que simplesmente nega os direitos de qualquer grupo com características diversas às da maioria ou dos que detêm o poder: negros, descendentes de orientais, homossexuais, membros de outras religiões, mulheres.

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A tolerância, assim, é apenas a aceitação do “diferente”. Muitos brancos toleram os negros, mas intimamente não reconhecem seus direitos como seres humanos; muitos ricos aceitam os pobres porque necessitam de seus serviços, mas não perdem a oportunidade de anotar como a classe trabalhadora é feia e mal vestida; a crença do outro é sempre errada e supersticiosa e, para muitos ateus, todas as crenças são ridículas, sinais de burrice.

O “politicamente correto”

Desde os anos 1980, vêm crescendo as campanhas pelo uso de um discurso neutro, que não transmita ideias discriminatórias, sejam racistas, sexistas, etc. Assim, todo discurso sempre começa com “senhoras e senhores”, “brasileiros e brasileiras”, como se o masculino, no plural, não englobasse também as mulheres. Pela mesma razão, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi rebatizada, passando a ser denominada como Declaração dos Direitos Humanos.

Os mendigos, espalhados pelas ruas de todas as cidades do mundo, transformaram-se em “sem teto” e, posteriormente, em “cidadãos em condição de rua”. Isto, no entanto, não alterou em nada a situação dos miseráveis: não basta chamá-los de cidadãos, se não há políticas públicas para a promoção da cidadania. Da mesma forma, os direitos das mulheres não estão garantidos apenas porque o feminino foi incluído nos discursos dos líderes.

Assim, o “politicamente correto” isolado, sem outras ações para atingir a liberdade, fraternidade e igualdade, bandeiras das revoluções liberais do século XVIII que modelaram o Estado democrático contemporâneo, é apenas uma revolução semântica. Mudam as palavras, mas as relações sociais continuam idênticas. Em outras palavras, mudam apenas as moscas.

Prova disto são os constantes casos homofóbicos, movidos por questões raciais ou xenofóbicas, que vão desde agressões verbais até agressões físicas, noticiados pela imprensa com uma frequência incomum, que evidenciam o desrespeito à diversidade e demonstram que, apesar de alardearmos o respeito aos direitos humanos, “ainda somos os mesmos e vivemos nossos pais”, como diz o compositor Belchior. É preciso que todos nós façamos a autocrítica, para encontrarmos nossos preconceitos; só assim poderemos superá-los, para nos tornarmos pessoas mais conscientes, livres e consequentemente felizes.

Em São Paulo, por exemplo, ataques contra homossexuais acontecem inclusive nos redutos gays da cidade. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) recebe mais de 50 denúncias de crimes com motivação homofóbica por mês. Enquanto isto, o Congresso empurra com a barriga o projeto de lei que tipifica os crimes resultantes de preconceito de sexo, orientação sexual ou identidade de gênero. Da mesma forma, nada se faz para equiparar salários de homens e mulheres na mesma função e o projeto de renda básica de cidadania, apesar de aprovado em 2004 (lei nº 10.035), ainda não atinge todos os pobres do país.

E nós, no dia a dia, deixamos de cumprimentar o porteiro ou o balconista da padaria, porque eles são “menores”. Rimos intimamente de cegos, surdos e mudos (apenas de chamá-los de deficientes visuais e auditivos), dos aleijados (agora, deficientes físicos) e dos bobos (deficientes mentais). Precisamos de mais atos e menos palavras, para atingirmos um estado de solidariedade, em que a diferença seja efetivamente aceita.

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