Artes e Cultura

O que é o mito de Jesus?

A teoria do mito de Jesus defende que ele não foi uma figura real, mas um personagem criado pelos primeiros discípulos.

Messianismo é a crença segundo a qual será enviado um mensageiro, um messias (palavra derivada do hebraico). Este ser divino será responsável por libertar os oprimidos. Em algum momento do início do Cristianismo, este ser foi identificado com Jesus, também qualificado como Cristo (do grego, com o mesmo significado). Surgem então duas hipóteses para o mito de Jesus:

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• ele teria realmente existido, mas seus ensinamentos foram mesclados e, de certa forma, para identificá-lo como o Salvador dos judeus, destruindo o jugo romano ou promovendo uma nova era de paz na Terra, sem opressores;

• Jesus seria apenas um personagem criado ainda nas primeiras comunidades cristãs da Galileia e Judeia, no século I, para promover a crença, difundida por alguns grupos da época, de que o fim do mundo estaria chegando e os maus seriam finalmente vencidos.

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A ideia do Messias é antiga entre os judeus. Um filósofo persa, Zoroastro, teria desenvolvido o dualismo entre o bem e o mal, a crença de que estes dois princípios incompatíveis um dia batalhariam. A vitória do bem era indiscutível, mas os seres humanos deveriam contribuir ativamente para esta conquista, que implantaria um reino de paz. No final dos tempos, surgiria um salvador.

A religião fundada por Zoroastro possuía muitos outros conceitos, que foram sendo sofisticados com o passar do tempo. No século V a.C., os judeus eram mantidos cativos na Babilônia (atual Iraque), que foi dominada pelos persas zoroastristas. É provável que, nesta época, Israel tenha sido influenciado pelas crenças impostas para a região da Mesopotâmia e as levaram quando finalmente retornaram para a Palestina.

Tempos depois, após ter sofrido o domínio de gregos e romanos, grupos judeus assumiram o messianismo, uma mescla de conceitos políticos e religiosos. No entanto, quanto mais a situação se agravava – Jerusalém foi destruída no ano 70, pondo fim ao debilitado Reino de Israel, mais populares se tornavam as crenças de que a ordem do planeta seria substituída por uma era em que o povo oprimido – o próprio Israel – finalmente seria liberto e conheceria a prosperidade: uma espécie de Reino de Deus implantado aqui mesmo, na Terra.

Ainda o mito

De acordo com os defensores do mito de Jesus, tendo existido efetivamente ou sendo uma colagem de rabinos, o personagem mais famoso da história nunca teria pretendido fundar o Cristianismo ou reunir uma coletânea no fim do mundo.

Seus contraditores, que acreditam no Jesus Histórico, entendem que sua existência real pode ser confirmada por outras fontes e evidências. Além disto, estes historiadores afirmam que diversas passagens do Novo Testamento, com as várias profecias sobre o Juízo Final, não devem ser tomadas ao pé da letra. Algumas correntes negam inclusive a ressurreição (a crença de que Jesus ascendeu de corpo e alma para o Paraíso).

O que a história sabe

De concreto, o mito de Jesus atinge alguns pontos indefensáveis. O primeiro deles é o cenário em que Jesus apresentou suas mensagens, através de parábolas e sermões, é bem diferente do apresentado pelos Evangelhos e dos filmes sobre a vida do Cristo: o mar da Galileia (na verdade, lago de Genesaré) é uma vasta extensão de água doce. As terras à sua volta eram mais férteis do que hoje e produziam azeitonas, tâmaras, nozes e figos – importantes produtos para o mercado da época. Os peixes do lago eram salgados nas águas do mar Morto e exportados para várias partes do Império Romano, a partir de Magdala (cidade de Maria Madalena), importante centro comercial.

O nascimento

Jesus não nasceu em Belém, nem no ano I da Era Cristã, nem no dia 25 de dezembro. A ideia de transportar o nascimento provavelmente para comprovar sua ascendência real: Belém é a cidade natal do rei Davi (outro personagem com várias controvérsias) e, de acordo com as Escrituras, o salvador deveria nascer ali.

A bela história do presépio, finalmente representada e eternizada por São Francisco de Assis mil anos depois, quase certamente não ocorreu. O relato é apresentado em apenas dois Evangelhos (Mateus e Lucas) e as histórias são diferentes. Para Mateus, Maria e José viviam em Belém quando Jesus nasceu. Lucas narra que eles moravam em Nazaré e viajaram para a Cidade do Rei em função de um censo decretado pelo imperador Augusto; José era descendente de Davi e, por isto, deveria responder ao recenseamento na cidade de seus ancestrais. O governo de Augusto é muito bem documentado, tanto em Roma, quanto nas colônias. Não há registro de nenhuma contagem do povo judeu – muito menos de que eles tivessem que se deslocar para o censo.

Quanto à data: a própria Bíblia conta que Jesus nasceu sob o reinado de Herodes, o Grande. No entanto, este reinado terminou em 4 a.C. Sobre o aniversário, ela foi determinada bem mais tarde, quanto o Cristianismo já era religião oficial do Império Romano. O 25 de dezembro foi estabelecido para coincidir com as homenagens a Mitras, um deus persa muito popular em Roma e também com a festa do Sol Invicto, festival que durava sete dias. Era a comemoração pelo solstício do inverno, mais precisamente em 20 ou 12 de dezembro; a partir do solstício, o Sol passa a aparecer mais tempo no céu, prenunciando novas e boas colheitas.

É pouco provável que outros personagens do presépio tenham existido, com exceção dos pastores, comuns em todo o país. A famosa visita dos três reis magos nada fala sobre reis, nem sobre três. O Evangelho de Mateus diz apenas que “uns magos do oriente” vieram visitar o menino. O texto mais antigo em que os nomes destes monarcas aparecem é do século V.

Os magos, no entanto, serviram para formalizar o cumprimento de outra profecia. Ao chegar a Belém, os visitantes, procurando visitar e reverenciar um rei, se dirigiram ao palácio. Herodes, ao receber a notícia, teve medo de ser destronado e decidiu matar todos os garotos menores de dois anos.

José teria recebido uma mensagem de um anjo contando o perigo, pegou a família e foi para o Egito. Só voltou de lá – diretamente para Nazaré – depois da morte do rei. O profeta Oseias escreveu, referindo-se a uma palavra divina: “Do Egito chamei meu filho”.

Crença e história

Sobre o mito da Virgem, ele é comum. Hera, Atena e Deméter, na mitologia grega, deram à luz sem concurso de um pai. Na verdade, entre gregos e romanos, toda mulher virgem, casada com apenas um homem (não participantes de um casamento grupal) ou, sendo viúva, não tornasse a se casar, era considerada virgem.

Entre os cristãos, a própria mãe de Jesus teria concebido a filha sem pecado. Maria, filha de Joaquim e Ana (nomes criados pela tradição católica que, respectivamente, significam “possui elevação” e “cheia de graça”). Este é o dogma da Imaculada Conceição, segundo o qual Jesus teria nascido de uma mulher isentada do pecado original.

Mesmo não questionando os Evangelhos e a divindade de Jesus, muitos especialistas em linguísticas consideram que ele não pode ser o mesmo autor da teoria da fraternidade: “amai-vos uns aos outros” e o conceito de “eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai a não ser por mim”. Para estes, a última tese implica exclusividade, participação em um grupo isolado, o que é incompatível com a ideia de caridade universal.

Alguns historiadores chamam a atenção para o fato de que, no ano 30 (época da pregação do Jesus histórico ou mítico), Jesus teria proferido ideias como “Pai Nosso” (que implica a ideia de fraternidade universal) ou “amai vossos inimigos”, o que o tornaria um grande revolucionário; o próprio relato “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” implicaria a ideia de expulsar os romanos da Palestina, terra santa, uma terra que era de Deus por excelência, de acordo com a análise de Reza Aslan, teólogo iraniano radicado nos EUA, autor do recém-publicado “Zelota”.

Aliás, na época da vida publica de Jesus, havia quatro grandes partidos políticos: fariseus, saduceus, essênios e zelotas. Os dois primeiros colaboravam com os romanos; os essênios entendiam que o domínio era um mal passageiro e, por isto, limitavam-se a afastar-se da vida em sociedade, vivendo em monastérios; os zelotas tentavam tomar o poder político. Sicários, publicanos e escribas eram subgrupos das classes dominantes e dos rebeldes.

Quando os Evangelhos começaram a ser escritos, 30 anos depois, o panorama havia mudado. Zelotas praticamente haviam desaparecido, fariseus e saduceus não conseguiam controlar a população e francamente iniciava-se uma revolução para expulsar os soldados romanos.

Neste contexto, as primeiras comunidades cristãs progressivamente se tornaram uma “religião protestante” do judaísmo e, ao mesmo tempo, tentavam não agravar a situação com os dominadores. Neste momento, teria surgido a indisposição entre cristãos e judeus.

Exemplos disto seriam a justificação de Pilatos, governador da Judeia (“eu lavo as mãos do sangue deste homem”, de acordo com o Evangelho de João, o único que cita esta passagem).

De qualquer forma, é tudo uma questão de fé. As pessoas têm o direito de acreditar piamente no conteúdo da Bíblia, refutar alguns trechos ou simplesmente negar a existência do Cristo histórico, identificando nos Evangelhos apenas o mito de Jesus. O livre arbítrio é fundamental para as escolhas. O importante é respeitar todas as crenças – ou falta delas – para que todos possam seguir suas vidas em paz, sem intolerância.

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