O que é o passe espírita?

Por: Amaury de Almeida Costa

Transmissão de energias revitalizantes e terapêuticas, o passe é atividade comum em todos os centros espíritas.

Desde que a Doutrina Espírita foi organizada (na França, por Allan Kardec, a partir de 1857, com o lançamento de “O Livro dos Espíritos”), a prática de ministração de energias aos assistidos é muito disseminada entre os adeptos. O objetivo central é o refazimento físico e a rearmonização espiritual. De acordo com os manuais da religião, para aplicar o passe espírita, não é necessário nenhum dom mediúnico ostensivo; aliás, no momento do passe, é recomendado que o médium esteja lúcido.

O que é o passe espírita?

Isto ocorre porque didaticamente há dois tipos de mediunidade: a geral e a especial. Através da geral, sintonizamos entidades desencarnadas (boas ou más, de acordo com as nossas afinidades) e assim podemos receber inspirações e também funcionar como um canal de retransmissão. Já a mediunidade especial exige o desenvolvimento de faculdades como psicofonia (incorporação), vidência, etc.

No Espiritismo, os passes são classificados em três categorias: espiritual, magnético e misto. No espiritual, apenas as energias do mentor (popularmente chamado guia) são canalizadas para o assistido pelo médium, enquanto no magnético são as energias do passeísta que entram na operação. Em alguns casos, os dois passes são aplicados em sequência e, em outros, a intervenção é exclusiva das entidades espirituais: após uma rápida preparação, os que foram buscar auxílio são deixados sem a presença de encarnados no local.

Médium “especial”

Vale dizer que é o dom mediúnico que é geral ou especial, e não a pessoa que os possui, que pode portar defeitos como todos nós – e até piores. Nestes casos, é possível a suspensão das faculdades: é uma forma de os mentores indicaram para seu pupilo que ele está no caminho errado. O objetivo da doutrina é o autoconhecimento, superação de vícios e conquista de virtudes; a manifestação mediúnica é apenas um meio.

Na maioria dos centros espíritas, os médiuns “especiais” são empregados em outras atividades além dos passes, como grupos de desobsessão ou psicografia. Nem todos os centros dispõem de todos estes serviços, que dependem da presença de servidores aptos e da orientação dos mentores da casa.

As salas de passes

Sempre que possível, recomenda-se que os passes sejam ministrados em salas especialmente preparadas para isto. Alguns centros apenas fazem a imposição de mãos, mas a maior parte segue as orientações contidas no livro “Passes e Radiações” de Edgard Armond publicado em 1950. Este mesmo dirigente espírita criou o curso “Aprendizes do Evangelho” e a “Escola de Médiuns”, posteriormente renomeado como “Curso de Educação e Treinamento Mediúnico”, já que a mediunidade não pode propriamente ser ensinada.

Na obra, Armond divide os passes de acordo com o objetivo: P1, para problemas físicos, P2, para desarmonias espirituais mais leves CA (choque anímico, para casos de maior comprometimento), P4 (subdivido em P4A e P4B, para crianças de até 11 ou 12 anos) e P3, para os casos de desobsessão. Estes passes são antecedidos pelo passe de limpeza (que é espiritual).

Os passes também podem ser ministrados a distância (são as radiações, mas, para isto, é preciso que o assistido se prepare – em casa ou no hospital, por exemplo). Atualmente, muitos centros oferecem passes a distância em seus sites, e dias e horários predeterminados.

Todos estes passes (que são magnéticos, isto é, exigem a doação de energias pelo médium) devem ser aplicados em corrente (cinco ou seis médiuns dispostos ao redor da pessoa que vai receber auxílio), mas muitos centros não têm espaço físico nem servidores suficientes.

Posteriormente, foram criados grupos específicos, destinados a dependentes químicos e de álcool, a portadores de HIV ou pacientes com câncer e outros tumores.

O que é obsessão?

Kardec classificou a obsessão em três níveis: simples, fascinação (quando o paciente passa a supervalorizar suas qualidades e habilidades) e subjugação (o paciente é quase totalmente controlado por seu carrasco espiritual). Os motivos são vários e vão desde maus hábitos (vícios, hábito da maledicência, etc.) a comprometimentos de outras encarnações, em que a vítima atual se tornou devedora de uma entidade (ou várias) que não conseguem perdoá-la. Pote ter ocorrido um homicídio, traição, roubo, etc.

No tratamento de desobsessão, o recomendado é que o assistido seja admitido na sala de passes, receba um passe para desligá-lo (ainda que provisoriamente) das entidades que a agridem e perseguem. Feito isto, a pessoa é deslocada para outro ambiente, preferencialmente com música e relaxante e leitura de mensagens espíritas, para impedir que ela permaneça com suas ideias negativas.

Na sala, um grupo de médiuns se reúne para obter informações sobre o caso: é necessária a presença de doutrinadores (que conversarão com as entidades), videntes e médiuns psicofônicos. Estes últimos “incorporarão” os agressores invisíveis. O objetivo é demonstrar que, mesmo que a vítima tenha cometido grandes atrocidades no passado, o melhor a fazer é deixá-la, para que refaça suas orientações de vida, e seguir a própria trajetória. Afastadas as entidades, o assistido retorna para receber passes de reequilíbrio físico e mental.

Em geral, são necessários alguns dias de diálogo. O principal risco é o abandono do tratamento; sentindo-se revigorado pela ausência dos obsessores, o assistido deixa de frequentar o centro. Se mantiver antigos hábitos negativos, poderá atrair outras companhias desagradáveis.

Não é apenas na desobsessão que existe o rompimento de elos entre encarnados e desencarnados. Todos os passes espíritas (inclusive para crianças) podem afastar alguns obsessores (existem espíritos apenas curiosos, brincalhões, que se aproximam dos encarnados apenas para se entreter).

Para se candidatar a trabalhar em um grupo de passes (ministrados na maioria dos centros), basta fazer o curso de educação e treinamento, ter boa vontade, disponibilidade e apresentar assiduidade. Em paralelo a isto, o médium precisa começar a se transformar intimamente, tornando progressivamente melhor. Conhecer as técnicas e teorias que embasam o passe também é importante: por isto, a leitura de livros espíritas e assistir a palestras sobre o tema é fundamental (um dos lemas de Kardec é “Espíritas: amai-vos e instruí-vos”).

Nos dias dedicados às atividades espirituais, os passeístas devem se abster de alimentos pesados, do álcool, de discussões desnecessárias, buscando ligar-se espiritualmente ao seu mentor, que o assessorará durante a ministração dos passes.

Mas não são apenas os médiuns que precisam se preparar física e espiritualmente: quem pretende se candidatar ao auxílio espiritual precisa tomar as mesmas cautelas e, principalmente, manter-se aberto para receber as energias benéficas. Sem isto, os resultados serão nulos ou muito reduzidos.

É preciso também ter afinidade com a Doutrina. De acordo com o Espiritismo, pessoas com outras convicções filosóficas e religiosas podem receber benefícios diretamente em seus templos, igrejas e mesmo com uma palavra trazida por um amigo, encontrado “por acaso”. O importante é se tornar melhor, não importa o local.

Quem ainda não tem opinião formada pode buscar o passe espírita e definir se os efeitos são indicados para ele.

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