Curiosidades

O que é o WikiLeaks?

Criado em 2006 e administrado pela The Sunshine Press, entidade sediada na Islândia, o WikiLeaks divulga pela internet informações confidenciais de governos e empresas (‘leak”, em inglês, significa “vazar”). Seu editor e principal divulgador e o ciberativista australiano Julian Assange. O site www.wikileaks.org, que sempre publica notícias sensíveis para as relações internacionais, é publicado em 12 idiomas, inclusive o português (www.wikileaks.pt). Um ano depois de seu lançamento, o WikiLeaks já apresentava 1,2 milhão de documentos reservados.

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Legenda: Julian Assange, fundador do Wikileaks.[/caption]

De acordo com o site, entre os fundadores do WikiLeaks estão dissidentes chineses, tecnólogos, matemáticos e jornalistas de startups americanas. Startup é uma empresa em fase de desenvolvimento, com operações e recursos limitados, geralmente recém-criada. A equipe que trabalha em período integral é composta por apenas dez pessoas, mas estima-se que o site conte com até dois mil voluntários, entre intelectuais, ativistas políticos, programadores e jornalistas.

O conselho do WikiLeaks é formado por Assange, o cineasta australiano Phillip Adams (de “Corações e Mentes”), o político brasileiro Chico Whitaker (que sugeriu a criação do Fórum Social Mundial), o chinês Wang Dan (um dos líderes dos protestos da Praça de Tiananmen, em 1989) e o engenheiro de software Bem Laurie (um dos principais especialistas em segurança na rede mundial).

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As postagens são feitas com o software TOR (The Onion Router), uma rede de computadores que disponibiliza meios de comunicação anônima. Assim, os fornecedores do material publicado no WikiLeaks não podem ser rastreados pelos serviços de inteligência.

Apesar do nome, o WikiLeaks não é um site aberto. O termo “wiki”, emprestado de um dialeto havaiano (significa muito rápido), nasceu na década de 1990, para designar as páginas da internet em que os leitores podem alterar os conteúdos, ampliando-os ou corrigindo eventuais erros. Os documentos postados no WikiLeaks são, em sua maioria, abertos aos internautas (existem algumas páginas que só podem ser acessadas mediante pagamento), seus editores garantem que eles são cópias fiéis das informações capturadas, mas os leitores não podem alterá-los.

Os recursos

Para se manter no ar, o WikiLeaks precisa captar 200 mil dólares por ano. Além dos custos com pessoal e estrutura do site, eventualmente é necessário remunerar as fontes do material vazado. Outro “custo fixo” do site são as despesas com advogados, já que existem muitos processos judiciais contra a divulgação de documentos sigilosos.

O WikiLeaks capta recursos principalmente através de doações de organizações da imprensa, como o Los Angeles Times e Associated Press. Em 2012, o site publicou um banner em sua página inicial, solicitando doações e informando a restrição do acesso a algumas notícias, que só podem ser visualizadas mediante pagamento. Isto provocou o rompimento com o Anonymous (www.anonymous.com), uma associação de hackers que também promove o ciberativismo. Os crackers do Anonymous chegaram a invadir os sites da Visa e Credicard, impedindo que eles processassem as doações.

Repercussão mundial

Em 2010, o WikiLeaks postou uma série de documentos sobre ações militares dos EUA. Entre eles, um vídeo gravado em 2007, em Bagdá, durante a ocupação americana do Iraque (2003-2011). As imagens mostram o ataque de um helicóptero, que matou 12 pessoas – entre elas, dois jornalistas da agência alemã Reuters, uma das principais agências noticiosas da Europa.

O site também oferece farto material sobre a Guerra do Afeganistão, iniciada em 2001, com a narração da morte de milhares de civis em função da ação militar dos EUA. Muitos e-mails e telegramas enviados pelo Departamento de Estado a diversas embaixadas americanas revelam atos de exceção, contrários às convenções internacionais que versam sobre conflitos bélicos.

Outro documento bastante polêmico é um manual que aborda o tratamento a ser dispensado aos prisioneiros da prisão de Guantánamo, em Cuba. São relatados 26 possíveis abusos, como expor os presos a temperaturas extremas, desrespeitar o Alcorão (o livro sagrado do Islamismo), além de atos de humilhação praticados por soldados do sexo feminino.

Estes episódios foram comparados, pela imprensa mundial, aos escândalos da Guerra do Vietnã, em 1971, quando o The New York Times iniciou a publicação de um relatório, elaborado durante o governo Lyndon Johnson (1963-1968), sobre as ações bélicas americanas na Indochina (como o uso de napalm, um desfolhante químico, para atacar populações civis) e o caso Watergate, quando o Washington Post trouxe em sua primeira página notícias sobre escutas telefônicas plantadas pelo governo federal na sede do Partido Democrata (o Edifício Watergate). Em 1974, o então presidente Richard Nixon teve que renunciar, porque as investigações jornalísticas apresentavam sinais evidentes de sua participação no caso.

Em 2011, um parlamentar norueguês indicou o WikiLeaks para o Prêmio Nobel da Paz. O autor da indicação afirmou que “o site é uma das contribuições mais importantes para a transparência e a liberdade de expressão. Ao divulgar informações sobre corrupção, violação dos direitos humanos e crimes de guerra, o WikiLeaks é um candidato natural ao prêmio”. O Nobel foi concedido para as liberianas Ellen Johnson e Leymah Gbowee e para a iemenita Tawakkul Karman, por sua luta não violenta pela segurança e os direitos das mulheres.

As represálias

Após o vazamento dos crimes cometidos na Guerra do Afeganistão pelos militares americanos, o soldado Bradley Manning, que teria descarregado milhares de documentos para o WikiLeaks através do sistema militar de correio eletrônico, ao qual apenas oficiais têm acesso. Manning está preso até hoje, na base dos fuzileiros navais de Quântico, em confinamento solitário. Ele foi condenado por violar oito artigos do código penal americano e também é suspeito pelo vazamento do vídeo de Bagdá.

De acordo com Assange, o repórter investigativo Seymour Hersh teria feito chegar a ele informações de que “ele precisava se cuidar”. Um ex-diplomata americano, especialista em segurança nacional, afirmou que os EUA tentavam se articular com os serviços de inteligência australianos, para aumentar a vigilância e provavelmente prender o ativista. O governo da Austrália teria recusado a proposta.

Um dos colaboradores do Wikileaks, Jacob Appelbaum, especialista em segurança de computadores, foi detido no Aeroporto de Newark (Nova Jérsei) quando retornava da Europa. Ele foi interrogado durante três horas por agentes do serviço de inteligência do exército e por funcionários do serviço de imigração, que o ameaçaram de submetê-lo ao mesmo tratamento caso voltasse a sair do país. Appelbaum teve seu laptop e celulares apreendidos e não foi permitido que ele fosse assistido por um advogado durante o interrogatório.

Em 28.11.2010, o WikiLeaks publicou os telegramas diplomáticos. Dois dias depois, a pedido da justiça da Suécia, a Interpol lançou uma notificação vermelha (distribuída em 188 países) contra Assange. Este comunicado significa que todos os que tiverem informações sobre o paradeiro do ativista devem denunciá-lo. O motivo formal foi a acusação de violência sexual, feita por duas mulheres meses antes.

No dia seguinte, a Amazon, que hospedava o WikiLeaks desde a sua fundação, retirou o site do ar, a pedido do Comitê de Segurança Interna do Senado americano. A página ficou várias horas fora do ar. O EveryDNS (o maior servidor gratuito de DNS, com 135 mil domínios) também retirou o domínio www.wikileaks.org, que migrou para o Twitter, hospedado na Suíça em com mais de 500 espelhos no mundo todo.

A vida continua

Assange continua procurado, mas o WikiLeaks segue firme e forte. Recebeu diversos prêmios, como o New Media Awards, da revista The Economist, e da Anistia Internacional, pela publicação das atrocidades cometidas no Quênia em 2008.

Em abril de 2010, o site postou um novo vídeo do Iraque (filmado em 2007), mostrando um bombardeio de áreas civis, com dezenas de mortes. Em julho do mesmo ano, quase 80 mil documentos sobre a Guerra do Afeganistão estavam disponíveis para os internautas. Dois meses depois, 400 mil páginas denunciavam crimes de guerra no Iraque.

Ao que parece, os governos precisam criar novos métodos para lidar com a imprensa. A internet não tem fronteiras.

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