Família e Relacionamento

O que é parto humanizado?

A expressão se popularizou, mas muita gente não sabe o que é parto humanizado.

Um ambiente tranquilo e silencioso, com pouca iluminação direta e uma música suave, para deixar a futura mãe menos agitada e insegura com o trabalho de parto. Certamente, a situação é de fragilidade e incerteza e o bom ambiente auxilia bastante, mas se você imaginou que é apenas isto o que diferencia um parto humanizado de um parto normal em um hospital, fique sabendo que muitas outras providências são necessárias.

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Um parto humanizado exige muito mais do que instalações adequadas, gentilezas e muita atenção por parte da equipe de saúde. Trata-se de uma nova atitude, que atende e respeita os desejos e necessidades das parturientes.

O parto humanizado não é um novo método para trazer crianças ao mundo. Não existem normas ou protocolos que precisam ser necessariamente observados. Cada mulher reage de forma diferente; o que os profissionais fazem é atender, na medida do possível, suas expectativas e desejos.

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Pesquisas recentes realizadas nos EUA indicam que os procedimentos hospitalares realizados rotineiramente durante os trabalhos de parto, teoricamente tendo em vista garantir a integridade da mãe e do bebê, são desnecessários e mesmo prejudiciais.

Intervenções hospitalares

Ao dar entrada no hospital com os sintomas de parto em andamento, a mulher é encaminhada a um quarto. O cômodo pode ser confortável – e até luxuoso – e o atendimento, cortês e ágil. No entanto, os procedimentos continuam sendo os mesmos: enema (lavagem intestinal), raspagem dos pelos púbicos, aplicação de soro e, no momento do parto, a mulher é deitada de barriga para cima, o que contraria a lei da gravidade.

De acordo com a OMS, esta posição da mulher durante o trabalho de parto, apesar de ser adotada em todo o Ocidente, é prejudicial ou ineficaz. Mesmo assim, continua fazendo parte dos protocolos da maioria dos hospitais e reproduzida cotidianamente, independente do que gritam os instintos da mulher.

Ao nascer, antes de receber as boas vindas dos pais ansiosos, o bebê tem as vias aéreas aspiradas com uso de sonda, mesmo aqueles que nascem saudáveis e teriam condições de eliminar as secreções. O contato pele a pele com a mãe logo após o nascimento e a amamentação na primeira hora de vida, fatores que auxiliam no estabelecimento de vínculos, são negligenciados em muitas instituições.

Enquanto o bebê espera para conhecer os pais, a mulher pode ter tido o períneo (músculo que envolve a região da vagina e do ânus) cortado para facilitar a passagem do bebê e, em vez de estar segurando seu filho, contando os dedos, verificando se há dois olhos, duas orelhas, dois braços, duas pernas, uma barriguinha, está recebendo pontos.

Mudanças de paradigmas

No parto humanizado, as coisas mudam já nos exames de pré-natal (que incluem todos os exames indicados pela OMS). O médico, com seu saber acadêmico, orienta a mãe sobre as melhores condições para gravidez e parto, mas a mulher não assume um papel passivo, confiando-se totalmente às informações prestadas pela equipe de saúde. Ela recebe opções e decide o que é melhor para ela e seu filho que está chegando. O parto deixa de ser um “ato médico”, para se transformar em “ato de vida”.

O nascimento raramente é induzido com medicamentos e a cesariana é a última das opções. O parto humanizado quase sempre é espontâneo, com a ruptura espontânea da bolsa, ainda que a gravidez ultrapasse as 40 semanas. Nestes casos, o acompanhamento é ainda mais próximo e pode ser necessária uma internação, mas a mãe tem direito a acompanhante e visitas.

A mulher escolhe como e onde dará seu filho à luz: na cama, em uma banheira, ficar sentada, de quatro sobre a cama, ficar de cócoras durante as contrações, alternar posições para favorecer o parto e o máximo conforto possível.

A mãe também decide se quer ou não receber anestesia. Ela recebe informações sobre métodos naturais para alívio da dor, como massagens e banhos mornos. Decidindo-se pelos anestésicos, a mulher recebe medicações que eliminam a dor, mas não limitam os movimentos. Mulheres de baixo risco podem escolher por deixar o filho nascer em casa, com auxílio de uma doula (acompanhante de parto).

Enquanto isto, no Brasil…

No Brasil, o avanço na adoção do parto humanizado é um sinal de que as coisas estão mudando. Médicos, obstetras e enfermeiros começam a perceber que o respeito à natureza e à vontade da mulher, especialmente em um momento tão delicado, reduz o número de complicações e permite o nascimento de bebês saudáveis.

De acordo com Edna Barreto, pesquisadora do Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Pará, “o parto mais aconselhável é aquele em que a mulher tem liberdade, pode fazer escolhas, é respeitada e está bem informada. Do ponto de vista da medicina baseada em evidências científicas, das boas práticas de atenção ao parto da Organização mundial de Saúde (OMS) e dos protocolos de humanização do nascimento do Ministério da Saúde, o parto mais saudável para as mães e os bebês é o parto normal, sem intervenções desnecessárias”.

Mesmo com este movimento, o Brasil é campeão mundial de cesarianas. A OMS considera que o procedimento cirúrgico é aceitável em 15% dos partos, mas o percentual brasileiro é quase o triplo: 43%. Na rede particular, o número salta para improváveis 80% dos casos.

Especialistas afirmam que os médicos indicam a cesárea exatamente por ser um ato cirúrgico, no qual o profissional se atém a rígidos procedimentos operatórios, tem menos probabilidades de errar e, consequentemente, de sofrer processos por imperícia. Muitas mães também se amedrontam com as dores do parto e apelam para a cirurgia, que envolve muito mais riscos. Os hospitais também se beneficiam, já que podem organizar uma “agenda de nascimentos”, sem ter de esperar horas pela conclusão de um trabalho de parto: uma cirurgia de uma hora é mais rentável do que deixar a natureza seguir seu curso por 12 ou mais horas.

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