O que é psicanálise?

Por: Amaury de Almeida Costa

Campo clínico de análise da psique humana, a psicanálise promove a saúde mental há mais de cem anos.

Em 1896, o médico neurologista austríaco Sigmund Freud desenvolveu uma nova abordagem de tratamento psicológico: a psicanálise, um método de investigação inicialmente indicado para quadros de neurose e histeria, que utiliza a “atenção flutuante”, em que o paciente verbaliza tudo o que vem à sua mente, mesmo que considere sem importância ou sem relação com seus estados de angústia, ansiedade ou incompletude.

O que é psicanálise?

A psicologia – o estudo da alma – é uma preocupação humana há 2.500 anos, mas quase sempre esteve atrelada à filosofia, cujo objeto é o estudo do homem e sua relação com o cosmos. No século XIX, com o desenvolvimento científico, a Psicologia surge como ciência independente, cujo foco central é a emoção. “Alma” progressivamente passa a representar o lado não físico dos seres humanos, já que as questões espirituais não são da alçada da ciência.

A psicanálise é um campo clínico independente da psicologia, embora tenha seus fundamentos nesta ciência. Além da associação de ideias, o tratamento psicanalítico tem como instrumentos a interpretação de sonhos e a análise dos chamados “atos falhos” – lapsos, erros aparentes no discurso e na postura física – que, para Freud, são manifestações dos desejos reprimidos.

Popularmente, a psicanálise é confundida com psicoterapia e mesmo com a psicologia. Cientificamente, porém, psicologia é a ciência que estuda o comportamento e os processos mentais, psicoterapia é qualquer forma de é o uso clínico – o tratamento – do conhecimento produzido pela psicologia e psicanálise é uma terapia específica, baseada no conhecimento produzido por Freud e seus discípulos, como Anna Freud, Carl Gustav Jung, Wilhelm Reich e Jacques Lacan.

O tratamento psicanalítico foi desenvolvido quando Freud percebeu que a maioria dos problemas de seus pacientes tinha origem em inadequações culturais. A sociedade estabelece padrões de conduta, preconceitos e tabus e, para se adequar a eles, os pacientes reprimiam desejos sexuais, apresentando comportamentos “normais”, mas mantendo latentes seus anseios, ocultos não apenas para seu grupo social, mas para a própria pessoa: eram mantidos no inconsciente.

Id, ego e superego

No início de sua pesquisa, Freud dividia a mente em duas partes: consciente e inconsciente. A porção consciente, que representa a parte superficial da psique e indica a imagem da pessoa para a sociedade e para si própria, seria uma porção mínima. O inconsciente, a maior parte da psique, conteria os instintos, as forças que regem o comportamento humano.

Em seguida, Freud propôs os conceitos de id, ego e superego. Em uma definição rápida, o id representa o inconsciente, a parte menos acessível da personalidade. O id desconhece os valores sociais, a distinção entre o bem e o mal, tem desejos e quer satisfazê-lo de imediato. No id, está concentrada a energia psíquica básica, também chamada de libido.

O ego é um intermediador entre esses desejos explosivos e as circunstâncias do meio em que o indivíduo era chamado a interagir. É a razão, em contraposição à emoção do id. O ego tem consciência da realidade objetiva, manipula esta mesma realidade e desta forma satisfaz e regula o id. Em outras palavras, o ego refreia os desejos até que encontre meios adequados para satisfazê-los.

O superego começa a se desenvolver quando a criança passa a conhecer as regras estabelecidas pelos pais, através do conhecimento do sistema de recompensas e punições. A conduta adequada – e isto varia de acordo com o grupo social – gera recompensas e gradativamente o ego se desenvolve, enquanto o indivíduo tenta encontrar o máximo de prazer com o mínimo de dor. O superego representa a aceitação da moralidade.

Para Freud, existe um conflito constante na moralidade humana. O ego tenta mediar as vontades imperiosas do id e a repressão formal do superego, sempre em busca da perfeição. Quando o ego sofre pressões excessivas, resultantes de traumas psíquicos de origem sexual, surge a ansiedade: a dificuldade em conseguir prazer e, ao mesmo tempo, aceitação social.

Uma curiosidade: Freud não gostava da palavra “ego” (“eu”, em latim) e raramente a utilizava. Na maioria das vezes, preferia “ich” (eu, em alemão).

Dissensões e críticas

As primeiras rachaduras do edifício freudiano surgem com Carl Gustav Jung, que não conseguia aceitar que todos os conflitos psíquicos tinham como origem a insatisfações e inadequações sexuais. Ao contrário de Freud, Jung via no inconsciente não apenas um depósito de memórias e punções reprimidas, mas também um sistema passado de geração em geração, um arcabouço que determinava a estrutura social: o inconsciente coletivo, composto por memórias herdadas dos ancestrais.

Alfred Adler também não concordava com a preocupação excessiva em relação à repressão sexual na infância e ia além disto: para Adler, médico austríaco filho de judeus húngaros, a interpretação dos sonhos tinha papel apenas simbólico no tratamento psicoterapêutico. O médico desenvolveu a psicologia individual: de acordo com o cientista, é a relação do ser com o todo que pode afetar o equilíbrio emocional, quando o indivíduo não se considera capaz de acompanhar o mundo e gera complexos de inferioridade ou, ao contrário, percebe-se superior ao grupo, o que também seria uma forma de compensação.

A formação do psicanalista

No Brasil, para atuar como psicanalista, é preciso fazer o curso específico na Sociedade Brasileira de Psicanálise. Para tanto, é preciso comprovar o atendimento clínico a pacientes, em clínicas e hospitais, por ao menos dois anos após a conclusão da graduação.

Médicos e psicólogos são candidatos naturais às vagas do curso, mas profissionais de outras áreas também podem candidatar-se. Os critérios de seleção variam de Estado para Estado. Os pretendentes à psicanálise passam por um período de cinco anos desenvolvendo o método, supervisionados por profissionais qualificados. A frequência em seminários teóricos e clínicos também faz parte da formação.

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