O que é religião?

Por: Amaury de Almeida Costa

Parte da cultura, a religião é a tentativa de explicar tudo o que envolve o nosso dia a dia.

A religião acompanha o homem há milênios. Desde que conseguiu se estabelecer minimamente, mesmo continuando a ser nômade, migrando para outras regiões à medida que os alimentos escasseavam, passamos a captar os sinais da natureza e a tentar entendê-los. Os astros – especialmente o Sol e a Lua –, os fortes ventos, os rios, as altas montanhas, tudo se tornou progressivamente motivo de adoração.

O que é religião?

Inicialmente, é provável que a religião fosse apenas um momento de êxtase frente a fenômenos aparentemente inexplicáveis, como o arco-íris ou o relâmpago.

Progressivamente, porém, especialmente depois do desenvolvimento do pastoreio – a primeira forma de pecuária –, o homem passou a relacionar fatos naturais à fartura ou à ausência dela. Sol e chuva são fundamentais para manter o gado saudável e bem alimentado, para desenvolver as plantas cultivadas, mas, em excesso, prejudica e pode destruir uma comunidade. Assim, surgiram as primeiras devoções ao céu, ao Sol, e começaram a se delinear as primeiras divindades.

O homem sempre atribuiu características humanas aos deuses que criou. Ainda hoje, judeus, cristãos e muçulmanos acreditam que Deus nos criou “à sua imagem e semelhança”; portanto, Deus teria mãos e pés (como nós), teria vontades e desejos, etc. Não por acaso, Sol é um substantivo masculino na maior parte dos idiomas (as exceções são o japonês e o alemão). Muito cedo, os homens reservaram o feminino para os elementos permanentes e dóceis (como as mães – é o caso da terra) e o masculino para os inconstantes e variáveis (como os pais – é o caso do Sol, que se “esconde” à noite, quando os perigos se acumulam, e por longos períodos do ano, quando não é possível semear ou colher).

A religião se tornou mais sofisticada em locais com estações bem demarcadas, especialmente nas em que as fontes de água potável são raras. Nos “paraísos tropicais”, a adoração natural se mantém até hoje em alguns locais do globo (como entre certas tribos da Amazônia).

A tentativa de agradar os deuses – cada característica natural cujas causas eram desconhecidas foi progressivamente se individualizando – teve início com sacrifícios. Para atrair os favores dos deuses da terra, dos ventos, das águas, os homens passaram a oferecer os primeiros frutos das suas atividades agropastoris – os primeiros frutos da terra e as primeiras crias (daí nasceu a tradição de dedicar os primogênitos aos deuses). Hoje, alguns festivais bem populares têm origem nos sacrifícios, como a Oktoberfest e as festas juninas.

Com o passar do tempo, surgiram os primeiros sacerdotes, responsáveis por oferecer os sacrifícios. Inicialmente, o pastor imolava um cabrito ou cordeiro, queimava-o e imaginava que os deuses recebiam o aroma da gordura derretida sobre o fogo. Posteriormente, os sacerdotes se tornaram uma classe influente na comunidade. O Antigo Testamento narra que os levitas (a classe sacerdotal) não tinham direito à posse da terra, mas grande parte das ofertas pertencia a eles. O texto é bastante detalhado: mostra os cortes de gado devidos aos levitas, bem como as porções de cereais e outros produtos agrícolas.

Inicialmente, não havia necessidade de uma divindade maligna: os próprios deuses recompensavam e puniam. A mitologia grega é rica de exemplos (a Guerra de Troia teve início com uma disputa entre as deusas Atena, Afrodite e Hera). No século VI a.C., surgiram os primeiros princípios do mal. Provavelmente herdado de crenças persas, o dualismo desenvolveu-se na Babilônia, com Ahura Mazda, o bem, e Arimã, o mal.

Zoroastro é o principal expoente do dualismo. Para ele, o bem está destinado à vitória, mas é preciso vigilância constante contra o mal. O predomínio do bem, para esta religião, é fixado com a encarnação de uma alma “que trará benefícios”, um messias. A cada mil anos, surgiria um ser para combater os preceitos do zoroastrismo e, nestes mesmos intervalos, Zoroastro reencarnaria para combater o mal.

Este maniqueísmo, da forma como foi formulado, é observado apenas nas crenças de povos pouco populosos, como os curdos e parses. Mas havia um povo escravizado pelos babilônios, quando os persas ocuparam a Mesopotâmia: os judeus. O rei Ciro II permitiu que eles retornassem à Palestina, aonde chegaram fortemente influenciados pelas crenças persas.

No século I, os judeus não encontravam uma saída para manter o seu Estado: já haviam sido dominado pelos gregos e, naquele momento, os romanos davam as cartas na Palestina. Surgiram os movimentos messiânicos – os judeus acreditavam na vinda de um messias que restabeleceria o reino. Um filósofo surgiu, proclamando o amor incondicional e o autoconhecimento – “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Evangelho segundo João). Sacrificado, transformou-se em um mártir da humanidade.

Historicamente, não se sabe se Jesus se autoproclamava o messias, mas seus discípulos certamente entenderam que ele vinha estabelecer o “reino de Deus na terra” e começaram a divulgar esta versão – tecnicamente, uma heresia do Judaísmo. Seja como for, suas lições foram recolhidas e tornaram-se a base das principais religiões do Ocidente, que continua lutando entre as forças do bem e do mal.

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