O que é sinestesia?

Por: Amaury de Almeida Costa

Sinestesia é a relação entre percepções sensoriais diferentes, como a união de gosto e cheiro.

A palavra sinestesia vem do grego e significa junção (“syn”) e sensação (“esthesia”). Trata-se, portanto, da relação de planos sensoriais, como a visão com o tato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e diversos fenômenos provocados por uma condição neurológica.

O que é sinestesia?

Figura de linguagem

Como figura de linguagem, sinestesia é a relação de entidades de universos distintos. É o cruzamento dos sentidos, a qualidade de um sentido atribuída a outro. Quanto mais sentidos apresentados numa oração ou verso, mais rico será o texto sinestésico. Um exemplo é: “Vamos respirar o ar verde do outono” (autor desconhecido; a frase une visão e olfato).

O poeta paranaense Giuliano Fratin é um mestre da sinestesia. São dele os seguintes versos: “Sempre havia, ao amanhecer, um cor estridente no horizonte” (visão e audição). “Era uma sonoridade aveludada como a superfície de uma flor” (audição e tato). “Como era áspero o sabor daquela fruta” (tato e paladar).

Interpretações cerebrais

Como condição neurológica, a sinestesia é uma confusão que provoca a percepção de vários sentidos de uma só vez. Não se trata de uma doença mental, mas de uma forma diferente com que o cérebro interpreta os sinais. Ainda não são conhecidas as causas exatas, mas sabe-se que é um processo involuntário e não aprendido.

Estudos indicam que ela é mais comum nas mulheres e pessoas canhotas e provavelmente é hereditária. Uma em cada duas mil pessoas apresentam esta condição: os sinestésicos podem ouvir cores, ver sons e sentir o sabor de uma textura, por exemplo.

Existe também a sinestesia espelho-toque. Trata-se de uma condição em que, ao observar uma queda ou acidente, a pessoa percebe a sensação dolorosa. Assim, ao presenciar alguém inadvertidamente martelando o próprio dedo, o sinestésico espelho-toque realmente chega a sentir a dor no próprio dedo. Não há estatísticas sobre o número de pessoas que desenvolvem esta sensação, que envolve um efeito espelho. Acredita-se que a sinestesia espelho-toque seja provocada pelos neurônios-espelho, que determinam o desenvolvimento excessivo da empatia emocional.

Estas pessoas, certamente, não são fãs de programas de “pegadinhas”, em que tombos, escorregões e outros traumas são exibidos como divertimento. Da mesma forma, não toleram filmes violentos, nem de terror: imagine-se sendo mordido por um vampiro ou devorado por um zumbi: é que experimenta o sinestésico espelho-toque ao ser exposto a essas imagens.

As associações sinestésicas estimulam a memória e por isto muitos artistas atribuem à sinestesia um importante componente em seus trabalhos. No século XIX, um artista podia se passar por sinestésico para ficar mais próximo do incomum. O artista plástico russo Vassily Kandinsky sentia fascínio pelos sinestésicos e utilizou a sinestesia entre música e pintura para inspirar suas obras.

O compositor russo Alexander Scriabin, nascido em 1872, associava sons e cores. Para criar algumas de suas obras, ele criou o teclado sinestésico: cada tecla recebia uma cor diferentes. Os dós e rés, nas diferentes escalas, receberam tons diferentes da mesma cor.

As pesquisas sobre sinestesia tiveram início há poucos anos e ainda não existem testes conclusivos para avaliar se uma pessoa é realmente sinestésica. A avaliação mais comum foi desenvolvida pelo psicopatologista da Universidade de Cambridge (Inglaterra), Simon Baron Cohen. O teste de genuidade mede a estabilidade de respostas: uma sequência de estímulos dos sentidos é apresentada (cores, luzes, sons, texturas, temperaturas, aromas, gostos azedos e doces, etc.) ao possível sinestésico e a regularidade de suas combinações é verificada posteriormente.

Em tempo: existe também o termo cinestesia, um homônimo homólogo (palavra que tem a mesma pronúncia). Trata-se da capacidade dos animais – inclusive o homem – de perceber os movimentos dos músculos.

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