Tecnologia e Internet

O que é slut-shaming?

Tentar provocar vergonha ou sentimento de inferioridade em uma mulher: isto é slut-shaming.

É um sentimento que ainda persiste na civilização, mesmo entre os grupos mais desenvolvidos e igualitários. O slut-shaming é a ação de repreender a conduta fora das expectativas sociais para o gênero feminino. Divulgar fotos ou filmes de sexo ou apenas comentar sobre o comportamento de uma amiga em comum (ou uma celebridade no foco da mídia) são outros exemplos de slut-shaming.

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Em última análise, podemos considerar que se trata de slut-shaming mesmo a mera constatação de que uma mulher que posa nua não pode ser séria. São muitas as variantes: mulheres que postam fotos atrevidas nas redes sociais, que dançam pole dance, que usam roupas consideradas sensuais, etc., apresentam um comportamento desviante.

Vadias em marcha

Não se conhece a origem exata do termo. “Shaming”, no caso, significa “envergonhar”. “Slut” significa “cadela” ou “vadia”. A expressão se tornou mais popular a partir de 2011, quando ocorreram diversos casos de estupro no campus da Universidade de Toronto (Canadá).

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Um dos responsáveis pela investigação, o policial Michael Sanguinetti, durante entrevista coletiva, fez uma observação sobre os trajes das estudantes; para ele, elas não deveriam se vestir como “sluts”, para não se tornarem as próximas vítimas.

Foi a senha para o início do movimento: três mil pessoas saíram pelas ruas de Toronto protestando contra uma total inversão de valores: de acordo com o policial, a mulher seria a responsável pelo crime de que foi vítima. Talvez tenha sido apenas uma declaração infeliz, mas autoridades públicas precisam pensar duas vezes antes de se dirigir à população.

Desde então, a Marcha das Vadias (como o movimento ficou conhecido no Brasil) já tomou as ruas de muitas cidades. Além da maioria das capitais brasileiras, houve manifestações em Campina Grande (PB), Pelotas (RS), Itabuna (BA), Londrina e Ponta Grossa (PR), Santa Maria (RS), São José do Rio Preto (SP), entre outras.

Além da defesa da liberdade de expressão, os protestos brasileiros também tentaram chamar atenção para o número de estupros, que passa dos 15 mil casos por ano. Esta estatística deve estar muito subestimada, já que muitas mulheres, envergonhadas, não prestam queixa. Outro grande problema é que parte dos estupros ocorre em casa – e os agressores são pais, tios, companheiros, namorados.

O slut-shaming pode surgir inclusive de forma inconsciente, ou através de tabus tão arraigados que quem os cultiva não consegue mensurar os danos que isto provoca no dia a dia. De forma consciente e positiva, é uma tentativa de policiar a sensualidade feminina, um método secular – e poucas vezes eficiente de cercear a liberdade de todo um gênero.

Em tempo: a motivação para o estupro não está associada à beleza ou à exposição do corpo. Os estupradores são sociopatas com muita necessidade de dominar, quase sempre misóginos (portadores de ódio, desprezo ou repulsa ao gênero feminino).

As praias não são as campeãs de estupro, apesar das poucas roupas dos banhistas. O estupro é um problema de ordem policial e de saúde pública. É preciso estabelecer mecanismos para neutralizar a ação deste misto de doença e crime. Mulheres podem e devem vestir o que quiserem.

Mulheres “não convencionais” são constantemente insultadas, tachadas de “vadias”, “piranhas”, “putas”, “biscates”, “oferecidas”. Talvez o caminho para superar o slut-shaming passe pela reflexão. Qual é o problema de ser “oferecida”? Uma mulher que se decida a experimentar vários parceiros e várias experiências sexuais deixa de ter capacidade de ser amiga, solidária, profissional, inteligente? A resposta é evidente: claro que não.

Em uma roda de amigos, o slut-shaming já causa sérios problemas (veja o que acontece quando uma garota de 14 anos ganha “fama” de ficar com vários meninos). Quando o fenômeno chega à mídia e às redes sociais da internet, as consequências se tornam imprevisíveis. É preciso superar esta forma de bullying, que não deixa de ser uma expressão do machismo.

O machismo

O machismo existe há muito tempo. Tanto tempo, que nem se pode contar. Tudo indica que as primeiras sociedades humanas eram matriarcais, possivelmente pela capacidade feminina de gerar e nutrir um filho (a paternidade, muito menos óbvia, foi descoberta bem depois).

Muito tempo depois, pinturas rupestres indicam que as mãos eternizadas nas paredes pertenceram, em maioria, a mulheres. Isto indica que, no início da domesticação das plantas, atividades masculinas (caça, pesca) e femininas (agricultura), não havia distinção vertical entre os sexos: não há valoração de uma atividade em detrimento de outra.

Ainda nas primeiras comunidades humanas, os vestígios de cerimônias fúnebres também não indicam distinção hierárquica entre homens e mulheres. Talvez os homens tenham conquistado a hegemonia quando as guerras se tornaram mais comuns, mas é certo que as mulheres da Grécia e de Roma antigas já não gozavam dos mesmos direitos no auge do que se convencionou chamar de “berço da civilização ocidental”.

Boa mãe, boa esposa

Um seriado americano de TV pode se basear em qualquer trama, mas, se houver uma família a ser retratada, os papéis sociais são inflexíveis: o marido é o provedor, que sai de casa pela manhã para “ganhar o pão de cada dia”, enquanto a esposa fica em casa, cuidando da casa, dos filhos e de se embelezar para receber à noite o seu amado – o guerreiro que volta à casa em busca de descanso, e talvez de um bom martíni.

Ainda hoje, mantemos este casal ideal (e inexistente) em nosso imaginário. Não por acaso, a expressão “trabalhar” significa sempre “trabalhar fora”. Mesmo com a já antiga “dupla jornada” (trabalhar em casa e fora dela), nós ainda entendemos que “trabalho é coisa de homem”. Apenas como exemplo, um homem que ganha menos do que a companheira não é uma pessoa bem-sucedida.

Para uma cultura que mantém e reproduz o slut-shaming, a mulher não pode ter nem demonstrar qualquer sensualidade. Um rapaz que sai com várias mulheres todas as semanas é considerado “um garanhão”. A mulher que tente fazer isto (mesmo que com menos frequência) é “uma vaca”.

O preconceito está presente inclusive entre algumas mulheres, que talvez não tenham conseguido exercer a sua vida e dignidade em toda a sua extensão.

A maioria das mulheres já sofreu e ainda sofre com slut-shaming. O modo de vestir, de encarar a sexualidade, de se comportar em grupo, tudo é motivo para censura. A pacata Sandy (da extinta dupla Sandy & Júnior) causou escândalo nacional ao insinuar que sexo anal pode ser prazeroso.

Já passou da hora de mudar este quadro. Homens e mulheres têm direitos iguais, e seres humanos têm direito de se expressar da forma que melhor lhes convenha. Qualquer pessoa que tenha tido um relacionamento aberto e franco (de amizade ou amoroso) sabe que ele é muito mais prazeroso. A submissão fica bem melhor em um museu – ou, talvez, em um cemitério.

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