Saúde e Bem Estar

O que é transtorno bipolar?

É uma doença psiquiátrica que afeta 3% da população mundial. Veja as características do transtorno bipolar.

O transtorno bipolar é um distúrbio caracterizado pelas alterações bruscas de humor. O portador pode acordar pela manhã, sem vontade de cumprir as primeiras tarefas básicas do dia – entre elas, levantar-se da cama.

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O dia segue com manifestações efusivas de amor e afeto no café da manhã, raiva no congestionamento, autoconfiança extrema e sensação de poder no local de trabalho, melancolia ao final da tarde (que pode chegar a crises de choro) e, ao chegar a casa, determinação de fazer mil coisas ao mesmo tempo – sem dar conta de nenhuma delas.

O transtorno bipolar está em terceiro lugar entre as dez doenças mentais que mais afastam os brasileiros do trabalho, depois da depressão e da esquizofrenia, de acordo feito por especialistas da UNIFESP, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

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O vaivém

Com esta descrição, parece que tudo está normal. Afinal, todos nós temos alterações de humor no decorrer do dia. O problema é que, para o bipolar, não há necessidade de motivos objetivos para passar sem escalas da ansiedade à certeza de que tudo vai dar certo, da alegria ao medo.

Certas horas do dia certamente propiciam o espírito a se recolher e mesmo a ficar melancólico. O final da tarde, para muitos, favorece momentos de introspecção e tristeza, que não são necessariamente ruins: nossa mente é um depósito de fatos positivos e negativos, que afloram quando a luz do dia começa a ceder para noite.

Ficar triste não é ruim. Ao menos, não é necessariamente ruim. O importante é encontrar mecanismos próprios para lidar com estas situações. Fracassos, erros, desilusões, perdas, dores e angústias são situações características da humanidade.

Para o portador do transtorno bipolar, portanto, não há tempo para o desenvolvimento de recursos de resposta aos sentimentos, dada à rapidez com que eles se alternam no cotidiano. O site do Hospital Albert Einstein descreve a doença como “a vida na montanha russa”.

As características

O transtorno bipolar já foi classificado como psicose maníaco-depressiva, até que, na década de 1980, especialistas concordaram em que a doença não apresenta características psicóticas, tais como a perda de contato com a realidade, alucinações ou delírios, desorganização psíquica, inquietude psicomotora, desorganização de pensamentos e inquietude psicomotora.

Os dois distúrbios psiquiátricos podem ocorrer simultaneamente, mas trata-se de um fato raro. Atualmente, o transtorno bipolar pode ser confundido com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Por isto, é preciso recorrer a especialistas, para que seja estabelecido o diagnóstico correto, com a adoção do tratamento adequado.

A doença se caracteriza pela alternância de períodos de hiperexcitabilidade (ou mania) e de depressão (e não apenas de melancolia). Em cada fase, o bipolar apresenta alterações na maneira de pensar, sentir e agir.

As pessoas com quem o portador convive podem considerá-lo excêntrico (o que, até certo ponto, está correto, já que a palavra significa literalmente “fora do centro” – e o indivíduo se alterna entre os extremos), arrogante, desorganizado, etc.

A ciência já sabe que o transtorno bipolar está relacionado a algumas alterações funcionais de algumas áreas do cérebro: o lobo central e a amídala são centros de processamento de emoções, motivação e mecanismos de recompensa; o lobo pré-frontal responde pelo reconhecimento de fisionomias e de tons de voz; e o hipocampo é o depósito da memória.

A proximidade destas áreas explica por que relacionamos diversas sensações, sentimentos e emoções a pessoas e situações importantes da vida, como a entrada na faculdade, o casamento, a perda de um parente próximo, etc. No caso dos portadores do distúrbio bipolar, porém, há uma espécie de “curto-circuito” entre estas regiões cerebrais.

Outro componente importante da doença é a irregularidade na produção da serotonina, neurotransmissor envolvido com a sensação de bem-estar. Esta amina, envolvida na comunicação entre os neurônios, também está associada à regularidade do ciclo circadiano, do sono e do apetite.

O transtorno bipolar possui características hereditárias: quando existem casos da doença nos ascendentes diretos, a incidência é 50% maior do que entre a população em geral. Entre gêmeos homozigóticos (com carga genética idêntica), a incidência nos dois irmãos é de 80%. Porém, o distúrbio está relacionado também a condições socioambientais.

O estresse, a insônia (ou sono insuficiente) e o consumo de drogas lícitas e ilícitas parecem estar associados ao distúrbio bipolar. Existe um caso específico em que a doença se manifesta temporariamente: logo depois do nascimento de um bebê.

Entre as mães, o fato pode ser explicado pelas alterações hormonais súbitas; entre os pais, no entanto, as causas estão integralmente no ambiente: novas emoções geradas pelo filho (amor, medo, dúvida, insegurança, etc.), privação de sono, expectativa, euforia e muitos outros componentes podem provocar alterações súbitas de humor.

A classificação

A psiquiatria classifica o distúrbio bipolar em três tipos: no tipo I, ocorre o predomínio da fase de euforia (ou maníaca), com períodos de distimia (depressão leve). No tipo II, ocorre o contrário: a depressão surge com mais frequência, alternada com fases menos expressivas da euforia (hipomania). Nos casos mistos, existe uma quase paridade entre as duas fases.

Nos chamados ciclos rápidos, as variações duram menos de uma semana e podem ocorrer várias vezes no mesmo dia.

Na ciclotimia, os episódios de alteração de humor se manifestam persistentemente por dois anos ou mais e caracterizam-se principalmente pela distimia e a hipomania, o que leva muitas pessoas a não procurarem auxílio especializado. Além disto, muitos destes pacientes são diagnosticados incorretamente como tendo depressão.

O diagnóstico

De acordo com a OMS, os critérios diagnósticos para o transtorno bipolar são os seguintes:

a) na fase de euforia: redução da necessidade de sono, aumento da comunicação (chegando à verborragia, por vezes ininteligível), dificuldade de manter a atenção, inquietude, aumento injustificado da autoestima, falta de autocontrole, impaciência, ansiedade e irritabilidade. O paciente deve apresentar três os ou mais destes sintomas;

b) na depressão: interesse reduzido pelas atividades do dia a dia (que pode chegar a uma total falta de prazer), sentimentos excessivos de culpa, sensação de ser inútil, melancolia durante a maior parte do tempo, fadiga, insônia, distúrbios psicomotores, perda ou ganho de peso (sem justificativa objetiva) e ideação suicida. O paciente deve apresentar ao menos cinco destes sintomas.

O tratamento

A terapia é realizada simultaneamente por psicólogos e psiquiatras. Em alguns casos, as intervenções de um neurologista e um terapeuta ocupacional são bastante úteis. Antes de definir o diagnóstico de transtorno bipolar, os especialistas afastam outras possibilidades que possam gerar as variações de humor (inclusive, se necessário, com equipamentos de diagnóstico por imagem).

Em geral, o tratamento do transtorno bipolar é ambulatorial, mas há casos em que a internação se torna urgente: muitos pacientes, na depressão, muitos pacientes desenvolvem ideias suicidas que podem se concretizar. Na fase da euforia, eles podem se colocar em situações de risco e mesmo desenvolver quadros psicóticos.

O uso diário de medicamentos antipsicóticos e antidepressivos é fundamental para o sucesso do tratamento: o distúrbio bipolar ainda não tem cura, mas pode ser controlado e permitir que o paciente leve uma vida normal. Em alguns casos, é necessária a supervisão de um parente, para que a medicação não seja negligenciada.

É necessário que o paciente se submeta a algum tipo de psicoterapia (em alguns casos, estendida à família), que é definido pela equipe responsável. A terapia comportamental cognitiva ajuda a trabalhar as emoções e a organizar os relacionamentos pessoais, conjugais e profissionais. Muitos pacientes demandam terapias vivenciais antes de poder expressar suas emoções e pensamentos.

Os episódios de alterações de humor, no entanto, continuam se repetindo, mesmo com o tratamento. A intervenção dos profissionais se fixa em evitar reduzir a gravidade e frequência dos episódios e evitar a internação.

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