O que é Vodu?

Por: Amaury de Almeida Costa

O Vodu é uma religião praticada no Haiti, que tem suas origens na África ocidental.

Vodu, ou Vudu, é uma tradição religiosa cujas origens estão relacionadas à nação Ewe-Fon, atual Benim, na costa da Guiné, onde até hoje sete milhões de adeptos seguem o culto. É um dos ramos da tradição dos orixás, como o Candomblé praticado no Brasil. Trazido para a América com os escravos africanos, é cultuado especialmente no Caribe, especialmente no Haiti, Cuba e República Dominicana.

O que é Vodu?

No dialeto Ewe-Fon, Vodu significa “divindade”. Mawu, uma entidade feminina, é o ser supremo da religião. Em seu relacionamento com Lissá, gerou os vodus. Esta divindade dupla é chamada de Grande Espírito Vital e, no Haiti, Bondje (derivado de Bon Dieu, Bom Deus em francês), distinto do deus dos brancos, que não protegia os africanos e seus descendentes. Os vodus gerados são os seguintes:

Loko é o mais antigo vodu, representado pelo fícus ou gameleira. Representa a natureza, sendo o vodu que habita na árvore. Gu comanda a guerra. Dan confere a prosperidade. Ele é representado pelo arco-íris, que, no Vodu, tem forma de serpente. Heviossô comanda os raios e tempestades. Agbê é o senhor das águas e Ayizan é a senhora das terras. Fá preside as profecias e adivinhações. Legbá protege os caminhos, e por isto precisa ser evocado em todas as caminhadas; também rege a sexualidade humana. Por fim, Agassu deu início à família real do Daomé, atual Benim.

O bem e o mal no Vodu

Bondje é distante da sua criação – a Terra e seus habitantes – e, portanto, quem governa todos os eventos e fenômenos são os Vodus e os ancestrais, que podem ser bons ou maus. A religião é mais conhecida pelos bonecos geralmente feitos de cera, cravados com agulhas para provocar doenças em inimigos ou desafetos.

O ditador François Duvalier e seu filho e sucessor, Jean Claude, eram adeptos do Vodu e consta que usaram os bonecos para atrair malefícios para seus adversários políticos. François, o Papa Doc, foi eleito presidente em 1959 e tornou-se vitalício cinco anos depois, ao reescrever a constituição do país. Morreu em 1971 e Jean Claude, o Baby Doc, assumiu o poder, permanecendo até 1986, com as mesmas práticas violentas do pai.

No Vodu haitiano, os espíritos são divididos entre quentes e frios. Os quentes (Petro) são originários da América e os frios (Rada), da África. Todos os humanos possuem um espírito protetor, que não é necessariamente bom ou mau, mas acompanha a conduta das pessoas, podendo mostrar-se maléfico em algumas situações.

A iniciação no Vodu

Os neófitos da religião precisam acompanhar os sacerdotes em caminhadas pela mata e por mercados, onde adquirem os alimentos preferidos dos espíritos. Em determinado momento do aprendizado, são encerrados nos terreiros, onde se submetem a uma rotina de preces e danças.

O isolamento pode durar até um ano. Neste período, aprendem as línguas sagradas e, antes de presidir o primeiro rito, fazem votos de obediência e sigilo sobre os mistérios do Vodu. Nos rituais, os oficiantes usam a “roupa de ração”, semelhante à das baianas brasileiras, mas sem rendas.

Os vodus incorporam nos oficiantes e dão conselhos, orientações e advertências aos consulentes. As atividades são intercaladas por danças marcadas por passos lentos e pesados. Após um ano da iniciação, os praticantes recebem o título de vodunsi. O sacerdote supremo é chamado de bokonon.

Não é necessário ser um iniciado para praticar o Vodu e servir aos espíritos. São os chamados bosais, que participam das danças e cantos, servem as refeições e até nos sonhos. Todas estas atividades têm como objetivo agradar e atrair a proteção do espírito pessoal.

A liturgia

Os rituais são bastante longos. Antes da cerimônia propriamente dita, os sacerdotes e bosais passam dois dias preparando os alimentos que serão consumidos pelos vodus. O rito específico tem início com hinos cantados em francês (no Haiti), seguidos por uma séria de orações intercessórias, recitadas em crioulo (dialeto que mescla línguas africanas, europeias e indígenas).

Velas brancas são acesas nos altares (que são erguidos em homenagem a um ancestral), decorados com flores, esculturas e fotografias, perfumes e alimentos prediletos do espírito.

Neste momento, são evocados os espíritos com o toque de tambores (chamados hounto). Inicialmente, são chamados os espíritos de Rada e, em seguida, os de Petro. Espíritos familiares são evocados diretamente, sem a mediação do sacerdote. A cada evocação, ocorrem incorporações e, a partir daí, têm início as consultas e curas.

A ética Vodu

Os valores cultivados pelo Vodu são o respeito ao Bondje, aos vodus, aos espíritos, à família e à sociedade, que devem ser protegidas e respeitadas. Assim, a prática do mal pode ser aceitável, mas, durante os aconselhamentos, sérias advertências são feitas sobre as consequências do malefício provocado sem motivo justo.

A prática da caridade é um ponto fundamental no Vodu e não se resume apenas a donativos: para o Vodu, ouvir um amigo numa situação difícil, ajudar alguém a carregar bagagens ou compras e brincar com os filhos são práticas necessárias para obter prosperidade, saúde e paz.

Racismo e preconceito são rejeitados pelo Vodu. Gays e lésbicas são aceitos naturalmente e podem tornar-se sacerdotes. A discriminação não é justificada por qualquer razão. O deus fez cada criatura como ela é e, por isto, não há motivo para censurá-la.

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