O que intolerância à lactose?

Por: Amaury de Almeida Costa

Incapacidade de digerir o açúcar presente no leite. Isto é a intolerância à lactose.

A intolerância à lactose surge quando o intestino delgado tem a sua função de produzir enzimas necessárias à sua absorção interrompida ou está deficiente. Quem sofre deste mal não pode comer leite (de origem animal), bebidas lácteas, nem qualquer bolo, doce ou pão que tenha o leite como ingrediente.

É preciso diferenciar reações alérgicas da intolerância à lactose. A alergia é uma reação do sistema imunológico a determinado ingrediente do alimento, enquanto a intolerância é um problema metabólico. Ambas podem ser provisórias ou permanentes e, por isto, requerem atenção médica.

O que intolerância à lactose?

O açúcar é fundamental para o organismo. Combinado com o oxigênio, ele libera a energia necessária para as funções das diversas células. No corpo humano, no entanto, os diversos açúcares: frutose (presente nas frutas), lactose (presente no leite e seus derivados) e maltose (tubérculos e outros vegetais) precisam ser transformados em moléculas simples de glicose, menores e menos complexas.

Para isto, são produzidas diversas enzimas que quebram os açúcares durante a digestão. Quando não há produção da lactase, ou esta é insuficiente, a enzima responsável por “processar” a lactose, este açúcar simplesmente não é absorvido, o que provoca náuseas, gases, inchaço e diarreia, que podem causar danos em todo o sistema digestório.

As causas

Existem fatores hereditários para a intolerância à lactose – é a deficiência congênita da enzima, comum especialmente entre prematuros, que nascem sem a capacidade de produzir lactase. São casos raros, mas, neste caso, a intolerância será permanente.

A maior parte dos casos, porém, são as deficiências secundárias, que ocorrem em função de lesões no intestino e do próprio envelhecimento (o nome técnico é deficiência ontogenética). Estudos indicam que 70% dos brasileiros já tiveram ou terão problemas com a digestão deste açúcar, que é comum na população africana, asiática e da Europa mediterrânea.

Nos adultos, a intolerância à lactose não representa grandes riscos, mas é preciso seguir a dieta prescrita, especialmente após cirurgias no intestino e infecções intestinais provocadas por vírus e bactérias (especialmente as que afetam as células da mucosa, o revestimento interno do órgão).

A doença celíaca, que afeta o sistema imunológico, provoca a formação de vilosidades no intestino delgado e cólon (pequenos canais que “enrugam” a parede destes órgãos), prejudicando a absorção dos nutrientes, vitaminas, sais minerais e água. O mal é genético e precipitado pela ingestão de alimentos contendo glúten, fato que provoca diarreia líquida, fadiga excessiva e, em crianças, problemas de desenvolvimento.

Na maioria dos casos, a doença celíaca é assintomática ou apresenta sintomas mínimos, motivo por que a maioria de seus portadores não procura ajuda médica. Com o passar do tempo, no entanto, as vilosidades tendem a aumentar e a intolerância à lactose (e a outros açúcares) pode causar sinais mais evidentes.

Em tempo: de acordo com a legislação brasileira, alimentos com glúten devem indicar esta condição na embalagem. São alimentos de trigo, centeio, cevada e aveia e produtos com estes cereais na composição. No entanto, não há lei que obrigue as empresas de informar sobre a presença da lactose.

Cuidados com as crianças

Bebês que nascem com o problema ou desenvolvem-no durante o primeiro ano de vida (apenas 2% a 5% dos bebês) podem apresentar problemas também, mas não é uma reação ao aleitamento; portanto, a amamentação não precisa ser suspensa.

O que ocorre é que a mãe pode ter ingerido leite, queijo ou mesmo um brigadeiro e a proteína alergênica passa para o leite materno, assim como a maioria dos nutrientes ingeridos em todas as refeições. Com acompanhamento pediátrico adequado, o mais provável é que a intolerância desapareça até a criança completar três anos (90% dos casos).

A mulher que tem problemas para amamentar deve recorrer a leites especiais. O organismo dos bebês é frágil – seu sistema imunológico ainda é imaturo – e isto pode prejudicar o desenvolvimento adequado dos órgãos internos, especialmente dos tecidos da mucosa intestinal.

Diagnóstico

O médico deve ser consultado sempre que os sintomas persistirem por alguns dias entre 30 minutos e duas horas após a refeição (tempo insuficiente para a digestão completa e sinal de eliminação de nutrientes importantes). No caso de bebês, a atenção dos pais e o acompanhamento durante o primeiro ano é suficiente para a detecção da intolerância à lactose, inclusive porque o crescimento pode ficar abaixo do esperado.

Os sintomas da intolerância à lactose são muito semelhantes aos da síndrome do cólon irritável. Assim são necessários exames para descartar a possibilidade da síndrome, condição um pouco mais grave, além de infecções, obstruções mecânicas do intestino, diverticulite e até alguns tumores em estágio inicial.

Após entrevista com o paciente, para levantar os sintomas e também o histórico familiar, o gastroenterologista pode solicitar uma enteroscopia (endoscopia de todo o trato gastrintestinal, especialmente do intestino delgado), teste do ar expirado (a presença de hidrogênio é maior em pacientes com o problema) e pH das fezes.

O tratamento

Adultos com deficiência de lactase (a proteína) conseguem tolerar até meia xícara (chá) de leite, sem apresentar qualquer desconforto. Os derivados – queijo, manteiga, iogurte, sorvetes, milk shakes – são mais bem aceitos pelo organismo, por apresentarem um teor menor de lactose. O mesmo ocorre com leite de cabra e leites de vaca especialmente processados.

Em alguns casos, o médico pode receitar lactase, que pode ser diluída no leite normal ou ingerida em comprimidos mastigáveis ou cápsulas.

Em pacientes mais resistentes ao tratamento, que precisam eliminar leite e laticínios da dieta, pode ser necessário adotar um suplemento de cálcio, mineral fundamental para a saúde de ossos e dentes. Um nutricionista deve ser consultado, especialmente se já houver problemas de desnutrição e perda de peso; com uma dieta balanceada, é possível encontrar os nutrientes presentes no leite em outros alimentos (leite de soja, folhas verde-escuras, brócolis, peixes de água fria e suco de laranja enriquecido são boas fontes de cálcio).

As orientações do nutricionista também são importantes para verificar se a ingestão diária de leite é adequada ao paciente, de acordo com sua idade, sexo, altura, peso, presença de problemas de saúde, etc. O excesso pode ser o responsável pela intolerância à lactose, especialmente entre adultos jovens.

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